O DEM de novo
O DEM, fração política originária do PFL, Partido da Frente Liberal, tem sido no Brasil fator de equilíbrio nas travessias. Claro que é inapropriada a analogia se não levar em conta fatores históricos e até ideológicos, mas ficou nítido que na virada para a democracia, principalmente após a derrota das "Diretas Já", foi a arregimentação no Colégio Eleitoral com Tancredo Neves e, sobretudo, a derrota do postulante do regime, coronel Mário Andreazza, para Paulo Maluf, o segundo revés que aplicava nos milicos, o primeiro na prefeitura de São Paulo, ao derrotar o ungido Amador Aguiar.
O PFL, raiz do DEM, foi uma dissidência aberta no PDS, substituto da ARENA. Hoje sem a força do passado, num cenário em mudança, ganhou as eleições para o comando tanto da Câmara quanto do Senado com Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, esta politicamente mais importante para o governo por derrotar Renan Calheiros que, pressionado, acabou renunciando.
Pergunta-se agora: isso facilita o trâmite das reformas? O situacionismo acha que sim, que contendo, como de certa forma já ocorreu com a corporação militar nas negociações de mexida na carreira para facilitar a reforma previdenciária, a via estaria aberta. Teme-se, no entanto, o papel que Renan Calheiros poderia desempenhar como eventual obstrução, daí porque o próprio presidente Bolsonaro, que o cumprimentou quando escolhido no MDB, tentará aproximação.
Maia, que melhor conhece o bastidor parlamentar, recomenda que se paute como prioridade a economia e consequentemente as reformas e não questões, que chama de costumes, de alta fermentação ideológica como Escola sem Partidos. Na verdade a melhor resposta ao momento brasileiro virá da economia, que se for frutuosa pode alavancar um novo ciclo que não seja fugidio como o Plano Cruzado e se aproxime do que representou o Plano Real.
Inconformismo
A força tarefa da Lava Jato, decepcionada com a decisão do STJ que liberou Beto Richa e o irmão da cadeia e ainda os beneficiou com salvo conduta, avalia a possibilidade de recurso ao STF. Não foi só, pois o STJ determinou a suspensão do processo referente à Rádio Patrulha, tocada pelo Gaeco, ainda que o coordenador estadual, Leonir Batisti, entenda que o argumento usado pela defesa (o processo de licitação já inserido nos autos) é suficiente para que a ação penal tenha prosseguimento. Lamenta que a suspensão deferida atrase o processo na questão dos depoimentos.
O fato é que em dois atos do STJ o ex-governador e seus auxiliares colheram vitórias. Deltan Dallagnol lembrou que o ministro do STJ seria suspeito para julgar o caso pelo fato de haver criticado a primeira prisão do ex-governador Beto Richa, em 2018.
A tarifa do arrepio
Com a distância cada vez maior entre a tarifa técnica e a real, o que define o espaço possível de subsídio, e com um complicador político na adoção da bilhetagem mecânica, pela ameaça de despedida em massa dos cobradores, abre-se a temporada de reajustes de impacto e para enfrentá-la, sorrindo como sempre, o prefeito Rafael Greca esteve na Câmara Municipal em relatos sobre a administração. Confiante, acredita na solução progressiva que se pretende na substituição gradativa de cobradores em novas funções que tenderia a reduzir a tensão que perturbaria as negociações em torno do contrato coletivo de trabalho a ser negociado neste mês. Grupos sociais que tratam do tema vão intervir nos debates e há inconformismo com a elevação frequente da tarifa técnica que reclama auditagem específica.
Fura fila
A ação do Gaeco contra o furo da fila do SUS expediu 12 mandados de prisão temporária e 44 de busca e apreensão. Entre os investigados está o ex-deputado estadual Ademir Bier, também ex-prefeito de Marechal Cândido Rondon, flagrado em interceptação telefônica, exposta semana passada na RPC, no esquema de cobranças que variavam de R$ 2 mil a R$ 8 mil.
Solidão
Destaque na primeira página da "Folha de S.Paulo", o drama do jogador de futebol Gabriel Costa, que treina em Maringá para não perder a forma no aguardo de uma solução para o seu impasse com um pequeno clube holandês. Está nessa situação há dois anos e ela expressa um drama que se repete em outros lugares. Muito fanatismo e ralo humanismo no futebol.
Folclore
Wilson Martins, um dos maiores críticos da cultura brasileira, se queixava muito da falta de uma obra sobre Manoel Ribas e que separasse sua figura real do caricato Maneco Facão, uma espécie de Benedito Valadares dos mineiros, tão usado em anedotas. Fernando Fontana, da família, fez um livro com esse empenho, mas na oralidade o que ficou é anedotário, como aquele dia em Castro ao ver o tamanho do discurso do prefeito que iria saudá-lo pediu que o levasse para a viagem e curti-lo no caminho como leitor privilegiado. Ribas era um cavalheiro, de gestos elegantes, mas não podia evitar o que surgia como ficção de sujas intervenções eventualmente mais duras. Algumas delas, como essa aí, aparecem na relação maravilhosa na obra de Sebastião Neri "Folclore Político", que narra situações de todos os bizarros da fauna.

mockup