O casal sai para jantar. Cuidado: é uma armadilha
A funcionária pública Ana Elizabeth Lofrano Alves dos Santos tinha 43 anos quando foi morta. Era uma mulher bem-cuidada, chefe da subsecretaria de Planejamento Setorial do Ministério da Educação, falava inglês com fluência, tinha mestrado em Educação. Deixou três filhos, Adriana, de 27 anos, Eduardo, de 26, e Rodrigo, de 13.
O marido dela, José Carlos, era funcionário aposentado do Senado, mas continuava trabalhando. Era assessor da Comissão Mista de Orçamento, instância encarregada de receber, avaliar e administrar as emendas ao Orçamento da União. José Carlos, economista formado pela Universidade de Brasília, havia sido diretor da Comissão Mista de Orçamento do Congresso e diretor do Departamento de Orçamento da União.
Na noite de 19 de novembro de 1992, José Carlos e Ana Elizabeth saíram para jantar num restaurante do Plano Piloto. Era um compromisso inusitado. O casal saía pouco para compromissos a dois. À saída do jantar, o carro do casal foi interceptado e um homem obrigou o casal a deixar a cidade na direção nordeste, rumo à rodovia que liga Brasília a Salvador (BA).
O carro entrou numa rodovia viscinal e seguiu por uma estrada de terra. Ana Elizabeth foi retirada do carro, amordaçada, encapuzada e morta com três golpes de picareta. Depois, foi jogada numa cova e sobre ela os assassinos atiraram quatro pedras.
O marido de Ana Elizabeth contou à polícia que foi jogado dentro do porta-malas do próprio carro, um Monza vinho, do qual se libertou batendo contra a lataria. Passou por uma barreira da Polícia Militar, mas não parou. Preferiu ir para casa e de lá ligou para a filha casada e para um amigo coronel.
O economista chorava muito e parecia desesperado.
Ä Levaram minha Beth, o que é que eu faço? dizia ele aos primeiros policiais a chegarem à casa dele, num bairro nobre de Brasília.
Na mesma noite, um homem ligou avisando que o Monza havia sido abandonado na rodovia. Adriana, a filha mais velha do casal, atendeu o telefonema e disse que o homem tinha uma voz firme e calma. O suposto sequestrador não falou em resgate. Dias depois, dois novos telefonemas foram feitos. Num deles, o homem pediu 300 mil dólares.
Um mês depois do desaparecimento de Ana Elizabeth, a polícia já descartava a hipótese de sequestro. Isso porque não havia sido mais feito pedido de resgate e a polícia suspeitava de José Carlos. Descobrira que ele tinha uma amante, a advogada Crislene Lima de Oliveira, e desconfiava da versão que ele tinha apresentado para o hipotético sequestro.
De início as investigações andaram a passos lentos. Só quase um ano depois do desaparecimento de Ana Elizabeth, a polícia decidiu reforçar as atenções sobre o caso. Já havia sob José Carlos a suspeita de uso de dólares falsos. Dos 300 mil dólares que ele entregou à policia para pagamento do resgate, 10 mil eram em notas falsas.
A polícia descobriu também que José Carlos mantinha uma apimentada garçonniSre num apartamento de uma quadra residencial do Plano Piloto. No apartamento de quarto e sala foi encontrado um vasto arsenal de produtos de sex shop, fitas de vídeo pornográficos e uma agenda com 170 nomes de mulheres.
Nesse mesmo apartamento, a polícia encontrou um pedaço de papel com os nomes de Lobo e Lia e um número de telefone. Lobo era o pseudônimo do detetive Lindauro da Silva que havia sido contratado por José Carlos para seguir a amante, que havia ficado grávida e o economista suspeitava que o filho era dele.
O crime começou a ser elucidado quando a polícia conseguiu um mandado de busca e apreensão na casa de José Carlos. Foram encontrados 2 milhões de dólares, 900 mil deles num buraco camuflado entre o armário e o teto do quarto, 800 mil debaixo do colchão e o resto em contas bancárias fora do Brasil.
José Carlos foi preso no dia 8 de outubro de 1993, acusado de porte de dólares falsos (mais 30 mil dólares). Na madrugada do dia seguinte, o economista foi torturado e confessou ter matado Ana Elizabeth, mas o que disse não coincidiu com o encontro do cadáver, 28 dias depois.
Depois das denúncias de que José Carlos havia sido torturado, a polícia adotou método menos fragoroso. Punha o preso de pé, nu e com as mãos algemadas para trás e o deixava assim por horas e horas. José Carlos conta que a posição lhe dava dores horríveis nos ombros.
O detetive Lindauro da Silva confessou ter matado Ana Elizabeth na noite de 28 de novembro de 1993. Nessa madrugada, ele levou a polícia ao local onde o cadáver foi enterrado. Lindauro disse ter matado a mulher a mando e com a participação de José Carlos. Afirmou que houve um assalto simulado e que o economista passou dois meses insistindo para que o crime fosse praticado. Para matar Ana Elizabeth, Lindauro ganhou 100 mil dólares e deu 16 mil dólares para o mecânico Valdei José de Souza.





