Se o PT mudou, o deputado Aloizio Mercadante (SP) parece que mudou mais ainda. De crítico ferrenho da política econômica e do Plano Real, ele hoje defende o Banco Central, critica planos demagógicos da oposição, vê ousadia mesmo nas propostas do candidato oficial, José Serra, e acha que um governo, quando em desvantagem no Congresso, precisa negociar, pactuar e criar governabilidade. ‘‘Não é difícil negociar na vida’’, diz Mercadante. ‘‘Acho que o Brasil mudou para melhor.’’
Coordenador do programa econômico do PT, o deputado que integra a ala moderada do partido vai mais longe: ‘‘Seria adequado que os candidatos à Presidência fossem obrigados a apresentar um projeto de orçamento para o País porque o programa tem de caber dentro de um PIB e de um único orçamento.’’
Aos 48 anos, Mercadante concorre pela primeira vez ao Senado e propõe uma blindagem em torno do Banco Central, com o argumento de que se trata de uma instituição a ser preservada durante a campanha por causa do ‘‘risco-país’’.
AE - O senhor tem defendido maior responsabilidade pública na campanha. O que vem a ser isso?
Mercadante - É tomarmos decisões políticas na campanha e termos atitudes do Congresso e do governo que reduzam a nossa vulnerabilidade externa e a nossa fragilidade fiscal. Não dá para fazer uma campanha para ver quem vai aumentar mais o salário mínimo. Em um país como o nosso a tentativa da demagogia eleitoral é muito grande. A racionalidade econômica é muito exigente, é muito dura e combinar essas coisas é angustiante. Agora, cada R$ 1 a mais no salário mínimo custa R$ 158 milhões na Previdência.
AE - Isso o governo sempre disse e o PT sempre discordou...
Mercadante - Aí é uma questão de prioridade. Acho o salário mínimo um instrumento fundamental de distribuição de renda, para criar um mercado de consumo de massas. Mas, quando eu disser que quero chegar a tanto, tenho de dizer como vou chegar. Este é o debate. Tinha de ser obrigatório cada candidato apresentar um projeto de orçamento para o País, com parâmetros macroeconômicos comuns. Receita e despesa têm de fechar.
AE - Mas o PT vai fazer isso?
Mercadante - É uma obrigação. Queremos quantificar os parâmetros, taxa de crescimento do PIB, déficit comercial, taxa de juros e receita tributária para mostrar o que tem no orçamento. E aí vamos eleger prioridades.
AE - Por que o PT não teve essa preocupação em outros momentos?
Mercadante - Nos momentos delicados não apoiamos? Quando veio a desvalorização do Real e o Banco Central não tinha reserva, quem subiu na tribuna para mostrar a cara e falar que não dava? Fui eu. E o preço que paguei não foi pequeno.
AE - O presidente Fernando Henrique disse que quase não conseguiu fazer o que fez porque a oposição não permitiu, brigou por brigar e hoje todos fazem o mesmo discurso...
Mercadante - Tínhamos uma divergência estrutural. Achamos que o primeiro governo foi um populismo cambial, que a deterioração das contas externas e públicas não eram necessárias. Depois da desvalorização do Real, a consciência dos problemas cresceu e ficou claro que a margem de manobra era pequena. Não existe mudança brusca, não existe mágica nem atalho na economia. É um processo de superar as restrições cambiais, financeiras e fiscais para o governo ter mais liberdade de fazer sua política econômica. Mas achamos que, enquanto se faz isso, é possível começar a criar um mercado de consumo de massas e promover a inclusão social.
AE - O senhor concorda com o presidente quando ele diz que o Brasil pode virar uma Argentina?
Mercadante - Não dá para ele falar isso. Os investidores lá fora mal sabem distinguir o que é Buenos Aires e Brasília. Depois das perdas monumentais que eles tiveram com a crise argentina e com os problemas macroeconômicos que temos, podem ficar assustados.
AE - Mas, afinal, podemos mesmo virar uma Argentina?
Mercadante - O Brasil não virará a Argentina. Nosso saldo comercial tem dificuldades, mas está crescendo. O déficit de transações correntes está diminuindo, a relação dívida e PIB começou a se estabilizar. Há uma mudança fundamental: não temos mais o câmbio fixo. A taxa de câmbio flexível permite acomodar melhor as turbulências internacionais. Ao dizer isso, o presidente está se candidatando ao papel de Menem na história.

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