O trabalho de base no PSDB e uma surpresa pouco antes das eleições de 1996 – o passe livre do estudante – garantiram a eleição do prefeito Jairo Gianoto, de Maringá, que agora, como candidato à reeleição, diz ainda não ter encontrado tempo para a campanha. ‘‘Fui ao comitê apenas uma vez, no domingo’’, disse à Folha. Foram quatro anos realizando ‘‘os sonhos dos outros prefeitos’’, e agora Gianoto quer o segundo mandato para fazer um trabalho próprio. Ele se refere às obras inacabadas ou projetos antigos que foram retomados. Alguns estão prontos.
Como prefeito, Gianoto sentiu a responsabilidade de assumir cada vez mais atribuições repassadas pelo Estado e pela União, sem o respaldo financeiro necessário. ‘‘O Brasil é um país que anda na contramão da valorização dos municípios’’, diz Gianoto. Ele acha que enquanto outros países valorizam os municípios, ‘‘que são responsáveis diretos pela área de segurança e de geração de empregos e educação’’, dando condições para que isso ocorra, no Brasil a situação é contrária.
‘‘Os governantes enfraquecem os municípios criando leis que penalizam as administrações. Muitos deles até em nome da famigerada dívida pública, alegando que os municípios são os grandes responsáveis pelo endividamento, quando na verdade não é bem assim’’, afirma. Na realidade, segundo Gianoto, os municípios são responsáveis por apenas 5% do endividamento público, enquanto os Estados respondem por 38% dessa dívida.
Gianoto diz que os próximos administradores municipais terão mais uma preocupação, a Lei de Responsabilidade Fiscal. ‘‘A lei é válida para criar a responsabilidade administrativa, mas veio no momento difícil da economia pública. E veio também tarde’’, comenta. O prefeito de Maringá acha que o correto era ter evitado o endividamento de Estados e municípios. ‘‘A lei fala do futuro, mas não leva em conta o passado e não vê a realidade atual’’, diz. A situação, acredita Gianoto, cria sérias dificuldades de investimentos. Os municípios vão conseguiu fazer o custeio da administração, e com sacrifícios.
O prefeito comemora Maringá ter alcançado 200 mil eleitores. ‘‘É importante porque mostra o potencial da cidade. Passamos a fazer parte de um grupo reduzido de cidades’’, afirma. Mas o processo do segundo turno, acha Gianoto, será bastante desgastante para todos os candidatos e eleitores. Ele diz que a campanha passa a ser um confronto direto, que vai exigir muito dos candidatos e do caixa de campanha porque encarece o custo final. ‘‘Para a população o resultado não fará muita diferença, mas se está na lei temos que respeitar’’, lembra.
Folha O senhor foi a surpresa da eleição passada para prefeito em Maringá. O que deu certo na campanha?
Jairo Gianoto O que deu certo foi o desgaste da política local. As brigas prejudicaram os que estavam se revezando no poder, e nós entramos justamente apaziguando essa briga.
Folha Agora existe algum trunfo que o senhor pretende usar para se manter no cargo?
Gianoto Não existe um trunfo. Acho que a campanha tem que ser feita em cima de propostas, mostrar o que fizemos nestes quatro anos, justificar o que não conseguimos fazer, e trabalhar com as propostas e planos futuros.
Folha Maringá está com nove candidatos a prefeito, o maior número no Estado e recorde na cidade. O senhor acha que o excesso pode atrapalhar a campanha e a decisão do eleitor?
Gianoto Acho que não. Nesta eleição teremos dois turnos, e o primeiro turno, quando estarão participando todos os candidatos, acaba não valendo nada para definir a eleição. Também acho que o eleitor saberá escolher.
Folha O PSDB, assim como outros partidos, acabaram se aliando a siglas que não tinham a intenção de lançar candidatos a prefeito. Foi feita uma tentativa de aliar uma frente mais ampla para somar forças?
Gianoto Na política estamos sempre buscando aliados, por isso estamos sempre somando. Buscamos o maior número possível de aliados. Estamos junto com outros seis partidos. Se não tivéssemos segundo turno acredito que a coligação teria mais partidos. Com o segundo turno as alianças não apenas do PSDB, mas também de outros partidos, ficaram mais restritas. Conseguimos um aliado forte, que é o PFL, com o qual sempre tivemos um bom entrosamento, desde a eleição passada.
Folha Como será a sua campanha?
Gianoto Vamos levar nossas propostas de governo, baseada na continuidade dos trabalhos, das idéias e da experiência na busca de recursos, pois já temos uma base de quatro anos dentro da realidade atual da administração pública.
Folha O atual vice-prefeito, o ex-deputado estadual Marquinhos Alves, desistiu do cargo assim que o senhor assumiu. Agora a intenção é manter o vice junto na administração?
Gianoto Buscamos um vice que tem experiência, que já excerceu o cargo em Maringá e é de uma família tradicional na política local. Ele também é altamente capaz e certamente vai estar aliado para nos ajudar.
Folha Outra característica do vice é que na eleição passada o senhor quebrou a sequência de vices da comunidade japonesa, que já vinha de três administrações. Agora o senhor está voltando à tradição com um vice descendente de japoneses, Willie Taguchi (PFL), de olho no voto da comunidade?
Gianoto Não exatamente. A escolha não foi minha nem do meu partido. O diretório do PFL, que está na nossa coligação, fez a escolha do nome dentro do partido, e acho que foi uma boa opção.
Folha O governador Jaime Lerner sempre esteve aliado à administração de Maringá. Ele já demonstrou apoio à candidatura do senhor ou ainda não?
Gianoto O governador tem sido aliado da cidade de Maringá em termos de investimentos. As maiores obras de infra-estrutura da cidade estão sendo construídas com apoio do governo do Estado. Lógico que esperamos Lerner como aliado, e ele já demonstrou que vai apoiar.
Folha Mas o senhor não teme um desgaste com o apoio do governador Jaime Lerner, devido às críticas que ele vem recebendo no Estado?
Gianoto Precisamos diferenciar o que é administração estadual e municipal. No caso de Maringá, volto a afirmar que o governador tem nos ajudado e muito em termos de consolidar a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento do município. Isso vai pesar na hora do eleitor decidir.
Folha O senador Alvaro Dias, que é do mesmo partido do senhor, mas inimigo de Lerner, já demonstrou uma posição em relação à campanha em Maringá?
Gianoto O Alvaro e o senador Osmar Dias já estão apoiando a nossa candidatura. O PSDB é hoje um dos partidos mais estruturados no Paraná e só alcançamos essa condição com resultados nas eleições municipais. Acredito no apoio dos companheiros do partido, independente de outros fatores.
Folha O senhor sabe quanto vai custar a campanha para prefeito do PSDB?
Gianoto A campanha tem uma estimativa de custo em torno de R$ 800 mil, valor já apresentado à Justiça Eleitoral.
Folha No exercício do cargo, o senhor acredita que será atacado durante a campanha eleitoral?
Gianoto Com certeza. Disso não temos a menor dúvida. Mesmo porque alguns candidatos não têm propostas, e sem propostas vão buscar exatamente o ataque de quem está no poder. Já estamos preparados para isso e conscientizando a população de que a grande maioria dos candidatos vai tentar denegrir a imagem da administração atual, apenas para tentar subir na preferência do eleitorado.
Folha Nos últimos quatro anos, o senhor conseguiu realizar várias obras. Alguma será explorada para atrair os eleitores durante a campanha?
Gianoto Fizemos algumas obras fundamentais para Maringá. Realizamos sonhos de outros administradores que tinham apenas sonhos mas não conseguiram realizar. Sonhos que ficaram no projeto e que estamos concluindo, como o novo aeroporto e o Hospital Regional de Maringá. Acho que são as duas obras de maior vulto da atual administração.
Folha Existe algum projeto criado na atual administração que também será explorado, como marketing de campanha?
Gianoto Vamos mostrar o que prometemos e o que realizamos. Nem tudo foi concluído até em função da situação econômica do setor público, que mudou muito o relacionamento com o governo federal e do Estado. Nosso maior compromisso era de concluir obras em andamento ou apenas iniciadas, e pavimentar 750 mil metros de ruas. Como já disse estamos fazendo o que outras administrações não fizeram. Já passamos de 1 milhão de metros de pavimentação mas não conseguimos alcançar todos os bairros, o que deve acontecer até o final da administração. As demais obras também serão mostradas porque trazem benefícios à comunidade.
Folha O senhor teve dificuldades também em administrar as dívidas do município. Voltando à prefeitura, o senhor acha que será mais fácil ser prefeito com as dívidas negociadas?
Gianoto Com certeza vai ser mais fácil. Nós pagamos uma grande parte das dívidas e o restante está sendo rolado. Maringá é uma das cidades que mais devem no País, principalmente em relação ao governo federal. Nós somos a 16ª cidade que mais deve ao governo federal. Isso não vai ser pago nem nessa nem na próxima administração. O pagamento é um processo que deve se alongar por pelo menos mais 10 anos. Mas é lógico que com as negociações feitas com os credores e a experiência que tivemos neste processo, será muito mais fácil administrar daqui para frente.
Folha Qual era e quanto sobrou da dívida?
Gianoto Quando assumimos, a dívida era de aproximadamente R$ 128 milhões. Nós já pagamento cerca de R$ 60 milhões, mas contando juros e outras vantagens em favor do credor deve ficar na ordem de R$ 80 milhões.
Folha A conclusão de obras paradas também vai facilitar a próxima administração?
Gianoto Tivemos que abrir mão de projetos de campanha, que não conseguimos realizar, e encontramos uma situação desastrosa. Obras de custo altíssimo iniciadas e não acabadas, como a rodoviária, o Novo Centro, aeroporto, Cefet, Teatro Calil Haddad, viaduto da Avenida Guaiapó, Vila Olímpica, algumas escolas e creches. Era uma infinidade de obras por concluir mas sem recursos para isso. Não havia locação de recursos de nenhum lado. Tivemos que reenquadrar os projetos e buscar recursos de forma a continuar as obras, e estamos concluindo todas. Ficamos penalizados nas nossas propostas, o que vamos justificar mostrando à população que trabalhamos em respeito ao contribuinte. A próxima administração, sem dúvida, terá condições de viabilizar projetos próprios. Mesmo porque não estamos deixando grandes projetos por concluir.
Folha O que o senhor não faria se fosse começar de novo a administração de Maringá?
Gianoto O erro que cometi ao assumir foi não ter colocado as contas das administrações passadas a limpo. Deveria ter colocado a realidade da situação financeira da prefeitura na mídia. Não fizemos em respeito à política e também à nossa proposta de campanha, que era de fazer uma administração voltada à paz e à união política de Maringá. Acho que nenhum administrador pode fazer isso sob pena de ser responsabilizado, como eu estou sendo em alguns casos. A partir do momento da posse, o prefeito tem que abrir a administração passada e colocar a limpo os déficts existentes, as obras inacabadas, de onde vieram ou por que não vieram recursos, para não ser penalizado depois.
Folha Qual o primeiro problema de Maringá que o senhor pretende solucionar se for reeleito?
Gianoto Temos alguns problemas na área de saneamento, que pretendemos dar atenção especial porque se trata de uma questão fundamental para a qualidade de vida. Mas uma segunda administração vai incentivar ainda mais a vinda de indústrias para o município. Vamos incentivar também a área de serviços, que tem crescido muito. Gerando empregos, vamos manter as condições não apenas de Maringá mas também da região.
Folha Já existe uma proposta para a reforma do secretariado ou da estrutura administrativa da prefeitura?
Gianoto Não. Acho que isso pode ser pensado depois da campanha se for reeleito. O que tínhamos de fazer de mudanças já foram feitas. Vamos agora cuidar da campanha e depois pensar em reformas. Até agora os secretários mostraram serviço e companheirismo. Tenho a maior confiança em todos, que me ajudaram a colocar Maringá entre as melhores cidades brasileiras para se viver e também para se investir.

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