O novo reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carlos Augusto Moreira Júnior, eleito no início do mês, tem pela frente desafios equivalentes à própria estrutura e tamanho da instituição que vai dirigir pelos próximos quatro anos. A caminho de completar seu 90º aniversário, a UFPR acumula problemas. Do sucateamento de algumas áreas à falta de recursos humanos e financeiros. Da crônica dificuldade no atendimento do Hospital de Clínicas, mantido pela universidade, à falta de participação da comunidade na discussão sobre os rumos da UFPR.

Moreira Júnior, médico oftalmologista e diretor do Centro de Ciências da Saúde da universidade, promete mudar esse cenário e pretende trabalhar para que a UFPR reassuma seu lugar de destaque no panorama político estadual. Reconhecida como a primeira universidade do País, a UFPR tem um orçamento invejável, somente superado pelo do próprio Estado, e pelos municípios de Curitiba e Londrina. Em 2002, a instituição deve administrar recursos de R$ 279 milhões.

Eleito com uma vantagem de 3% sobre a chapa concorrente, liderada pelo professor Luiz Edson Fachin, o novo reitor acredita que a universidade deve responder aos anseios da comunidade, ser um agente de mudanças e repassar à sociedade o conhecimento acumulado por seu corpo docente. Moreira Júnior, acompanhado pelo vice-reitor Aldair Rizzi, concedeu a seguinte entrevista à Folha.



Folha A UFPR já desempenhou, há alguns anos, um papel fundamental no processo político paranaense. Por uma série de fatores, essa importância foi diminuindo nos últimos anos. O senhor pretende resgatar esse papel histórico da instituição?
Moreira Jr. É fundamental que se retome esse papel. Temos que resgatar o conceito de universidade do Paraná. Houve época que a universidade tinha uma importância política astronômica, a própria história do Estado mostra a instituição como um divisor de águas. Apesar de ser uma instituição federal, ela precisa interagir com o poder estadual e municipal. E a nova gestão vai agir de forma intensa para mudar esse cenário.


Folha Um dos maiores problemas que deve ser enfrentado após sua posse é o Hospital de Clínicas (HC). Quais são seus planos imediatos para o HC?
Moreira Jr. Temos três ações de curto prazo. A primeira é abrir concurso para que os funcionários da Funpar (Fundação da Universidade Federal do Paraná para o Desenvolvimento da Ciência, da Tecnologia e da Cultura) passem para o quadro do MEC (Ministério da Educação e Cultura). Esse concurso já foi feito no passado. Para isso vamos articular a bancada paranaense no Congresso, porque entendemos que esta é uma questão suprapartidária. O segundo é o teto do HC junto ao SUS (Sistema Único de Saúde). Hoje esse teto é de R$ 2,85 milhões ao mês. Esse valor é insuficiente para o trabalho que o HC produz. Em geral fazemos 700 tomografias por mês e o SUS só nos paga 400. Prestamos serviços do banco de sangue, também muito além do que esse contrato estabelece. Então o que acontece por volta do dia 22, 23 de cada mês o HC já atingiu o teto e acaba tendo que trabalhar de graça durante o resto do mês. Outra coisa é suplementação orçamentária das prefeituras, que mandam pacientes do Interior para nós. Cerca de 50% dos pacientes atendidos no HC são do interior, mas como os recursos repassados pelo SUS levam em conta somente a população de Curitiba, temos um desequilíbrio contínuo.


Folha Como os municípios poderiam participar dessa suplementação orçamentária? Isso seria fácil de ser colocado em prática?
Moreira Jr. É perfeitamente possível, porque já temos um exemplo de um hospital privado aqui na Região Metropolitana de Curitiba, que recebe verba dos municípios. Vamos tentar implantar esse modelo já no próximo ano e para isso teremos que articular uma ampla frente política. Existe um grande movimento em prol do HC e vamos capitalizar isso.


Folha O atendimento do HC à população vai melhorar?
Moreira Jr. Temos que ter uma política muito clara de valorização dos recursos humanos do HC. Infelizmente não existe uma política muito clara para isso e as pessoas estão desmotivadas. O que vamos fazer é motivar o quadro funcional, com valorização dos profissionais, rever as condições de trabalho, isso vai fazer com que as pessoas voltem a trabalhar mais, a produzir mais para o HC e humanizar o atendimento interno e externo do hospital.


Folha Quantos pacientes o HC atende anualmente?
Moreira Jr. Cerca de 600 mil por ano. Ou seja, mais ou menos 50 mil pessoas a cada mês.


Folha Existe a possibilidade de abertura de novos cursos na UFPR?
Moreira Jr. Entendemos que a oferta de novos cursos é necessária, que é um anseio da sociedade, só que para abrir novos cursos é preciso garantias que o MEC nos dê estrutura, nos dê recursos humanos, porque senão vamos simplesmente abrir um curso que não terá laboratório, biblioteca, infra-estrutura, falta de sala de aula, etc.


Folha Existem cursos que passam por dificuldades? Quais?
Moreira Jr. Existem cursos antigos que estão com problemas. Alguns, por exemplo, que receberam avaliação insuficiente do comitê do MEC. O curso de Comunicação Social é um deles. Os cursos de Ciências do Mar e de Terapia Ocupacional também precisam ser melhorados.


Folha E quanto à abertura de novas vagas no vestibular, isso pode ocorrer?
Moreira Jr. A gente tem que procurar ajudar a sociedade. Num país que precisa de universidade pública é importantíssimo pensarmos nisso. Mas por outro lado, isso precisa ser feito com prudência. Não podemos abrir novas vagas sem ter condições físicas e infra-estrutura. Acho preocupante ter simplesmente um política expansionista sem ter critérios, isso pode atropelar todo o processo e criar uma situação insustentável até para o curso inteiro. Cito como exemplo o curso de Medicina. Seria impossível oferecer novas vagas com a estrutura atual, mas entendo que a sociedade tem essa necessidade. É um assunto que precisa ser discutido com profundidade e ter diretrizes claras por parte do MEC.


Folha E quanto à interiorização dos concursos de vestibular. Ela deve ser ampliada?
Moreira Jr. O processo inteiro do vestibular precisa ser reavaliado, ele vem sendo aplicado há muitos anos, existe uma grande capacidade da comissão em aplicá-lo, mas acho que faz parte discutir isso. Se essa é a melhor forma de ingressar na universidade, se não há formas alternativas, obedecendo uma orientação vocacional. Será que uma pessoa que queira cursar a área de Humanas precisa aprender trigonometria? Uma discussão sobre o processo pedagógico é imprescindível e urgente. Mas ele terá que contar com a participação de toda a sociedade. Não podemos mais nos furtar dessa discussão, que deve ser feita a curto prazo.


Folha O senhor defende projetos que assegurem um número determinado na universidade para alunos oriundos de escolas públicas?
Moreira Jr. Essa idéia é controversa e vai contra a Constituição Federal, que garante isonomia a todos para ter acesso ao ensino. Se começarmos a fazer algumas exclusões, mais individualizadas, precisaríamos discutir muito essa hipótese. Eu, sinceramente, neste momento não tenho uma posição muito clara sobre esse tema.


Folha Por que, apesar de ser gratuita, a UFPR cobra por cursos de especialização?
Moreira Jr. Eu concordo que todos os cursos deveriam ser gratuitos, mas na situação atual da universidade, esses cursos de pós-graduação acabam viabilizando outros que não teriam condições de existir se não fosse esse repasse de recursos. Acho que é necessário ter uma transparência e um controle absoluto sobre esses cursos.


Folha As verbas repassadas pelo governo federal à universidade vêm sendo reduzidas ano a ano. Isso tem causado um sucateamento da instituição?
Moreira Jr. Infelizmente isso tem ocorrido. E como consequência direta há o sucateamento de alguns setores. As áreas mais afetadas são as de tecnologia de ponta, de Física, da área de saúde. Estes são alguns dos exemplos. E existe outro problema que diz respeito à falta recursos humanos. Temos um exemplo típico dessa situação. No HC existe um equipamento parado há quase um ano. É uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) cardíaca, que está pronta para funcionar, e que vai possibilitar que o hospital faça transplantes de coração. Até o momento ela não pôde ser posta em funcionamento porque não existem enfermeiros capacitados para trabalhar na função.


Folha A UFPR é mantida com recursos da população. Ela está conseguindo devolver esse investimento para a sociedade?
Moreira Jr. O conhecimento acumulado não está sendo repassado e é por isso que defendo projetos de extensão. Parcerias com entidades e com o poder público que possam levar o trabalho do estudante e da universidade a populações carentes. Desenvolver uma série de atividades sociais em algumas comunidades vai mostrar à população o que está sendo feito pela universidade.


Folha A sociedade pode e deve participar da discussão dos rumos da universidade. Para isso existe um conselho que conta com a participação de diversos segmentos da sociedade. Apesar disso, não há uma fiscalização efetiva da comunidade. Como isso pode ser mudado?
Moreira Jr. A participação realmente é tímida, e acho que é preciso motivar as pessoas a participar do processo. A universidade também precisa agir de forma mais agressiva para reunir todos os segmentos e discutir a realidade. A universidade perdeu muito se fechando ao longo dos anos. Ela precisa voltar a se abrir. E quando ela se voltar para a comunidade, executando projetos de extensão na área de saúde, de amparo legal, assistência à educação, aí a sociedade vai se vincular novamente à UFPR.

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