Novo quadro político será teste para 2002
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segunda-feira, 01 de janeiro de 2001
Ariosto Teixeira Agência Estado De Brasília 
Com a posse dos novos prefeitos e vereadores, instala-se, a partir de hoje, a base política-administrativa sobre a qual se processarão as eleições gerais de 2002. Os partidos que se sentiram vitoriosos nas eleições de outubro, especialmente os do campo da esquerda, pela votação que tiveram nos grandes centros urbanos, passaram a considerar que o quadro político municipal se tornará uma referência decisiva para o desempenho que pretendem ter na campanha presidencial e pela conquista dos governos estaduais.
O pressuposto desta preocupação é de que o eleitorado avaliará a performance dos prefeitos e dos respectivos partidos a fim de premiar os que se saírem melhor. Do desempenho de nossas prefeituras dependerá, em grande parte, o nosso êxito em 2002, adverte um documento de análise das eleições municipais de 2000 aprovado no dia pelo Diretório Nacional do PT.
Naquele momento, ainda tomado pela euforia da vitória do partido em cinco capitais no segundo turno, os dirigentes petistas perceberam que não bastaria ter ganho, por exemplo, o direito de governar São Paulo, a maior cidade do País, e de administrar um orçamento mais valioso do que o de países vizinhos como o Uruguai e o Paraguai para garantir conquistas futuras. Eles agora também estarão na vitrine, afirmou o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), resumindo, na ocasião, o significado da vitória da prefeita eleita Marta Suplicy (PT).
De fato, concordam os petistas no documento As eleições de 2000: balanço, perspectivas e tarefas, a votação recebida pela legenda abriu a perspectiva de conquista do poder central, o que, naturalmente, aumentará o interesse da sociedade pelo desempenho dos prefeitos do partido e pelo programa com o qual disputaremos as eleições. Tudo isso é verdadeiro, admite o deputado José Genoino (PT-SP), mas é preciso, diz ele, que o partido tenha o cuidado de não transformar suas administrações em reféns de 2002.
Segundo pensa Genoino, a luta política municipal tem uma esfera própria de assuntos, ainda que também seja realista imaginar que a viabilidade das administrações de um partido conferem credibilidade às propostas e programa de governo.
O líder do PPS no Senado, Paulo Hartung (ES) também concorda que o PT de Luiz Inácio Lula da Silva, ao conquistar a prefeitura paulistana, adquiriu uma vitrine, mas não ganhou, conforme ele, um fator decisivo, nem para a vítória, nem para a derrota. Decisivo em 2002 será ganhar o centro político e a sua grande massa de eleitores, raciocina o líder do partido do ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes, o segundo na preferência do eleitorado na corrida presidencial, segundo as pesquisas.
A marcha da conquista da maioria eleitoral, explica o presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), tem pouco ou quase nada a ver com o que ocorre na campanha municipal. Esse tipo de eleição serve para estruturar as bases de cada partido; o PT e o PPS ampliaram as suas estruturas, mas isso não lhes dá vantagem para 2002, afirma.
O PMDB, com efeito, saiu como o maior partido do País das campanhas municipais de 1992 e 1996, e teve um desempenho medíocre nas eleições presidenciais de 1994 e 1998, quando deixou de lançar candidato para aderir ao tucano Fernando Henrique Cardoso.
Outros exemplos lembrados pelo dirigente do ainda maior partido do País em número de prefeitos e vereadores eleitos (1.257 prefeitos e 11.353 vereadores): Paulo Maluf elegeu Celso Pitta em 1996 e perdeu a eleição para governador de São Paulo em 1998; Cesar Maia elegeu Luiz Paulo Conde em 1996 e também perdeu a disputa pelo governo do Rio dois anos depois, apesar do bom trabalho do seu sucessor na prefeitura.
Se a campanha de 1996 ficou marcada como a dos prefeitos exitosos que elegeram quem bem entenderam para sucedê-los, em 2000 o fenômeno eleitoral adquiriu natureza diversa. A competição foi, de modo geral, renhida nos maiores colégios, mostrou uma grande divisão do eleitorado e acentuou a pulverização do quadro partidário como uma característica marcante do sistema político ao distribuir as maiores prefeituras entre vários partidos.
Os números mostram que não emergiu das urnas uma força dominante e que essa tendência eleitoral tem alta probabilidade de se repetir daqui a dois anos tendo em vista a disposição dos partidos, tanto da oposição quanto da situação, de participarem da disputa com nomes próprios. Em tal cenário, parece lógico que os partidos se preocupem em obter o melhor desempenho possível nas prefeituras como estratégia para confirmar o apoio da maioria nas regiões onde venceram.
O que vale para um, porém, deve valer para todos. A performance que os partidos tiverem na condução dos assuntos municipais certamente será levada em conta na campanha nacional. Um sucesso retumbante numa vitrine como São Paulo, Rio e Belo Horizonte, cidades onde se concentra proporcionalmente a maior massa eleitoral do País, poderá se transferir para o candidato a governador e a presidente indicado pelo prefeito. Da mesma forma, o fracasso poderá afetar negativamente o desempenho da legenda.
Considerando-se que, em tese, a base municipal conquistada em 2000 terá algum tipo de impacto em 2002, o quadro administrativo que se formou reflete a divisão do eleitorado e projeta um cenário de grande incerteza sobre a sucessão de Fernando Henrique Cardoso. O PT foi o partido que conquistou, individualmente, o direito de governar para a maior fatia do eleitorado. Nos municípios a serem governados por esse partido, moram cerca de 28 milhões de pessoas. As eleições de outubro revelaram, contudo, que o PT perdeu 47% das cidades que havia conquistado em 96, o que indica frustração de expectativas, rejeição do eleitorado e um mau resultado para quem esperava oficialmente reeleger 80% dos seus prefeitos.
Além disso, ainda faltam quadros e capilaridade nacional ao maior partido da oposição, que não conseguiu eleger um prefeito sequer em cinco Estados (Amapá, Amazonas, Roraima, Alagoas e Espírito Santo) e lançou candidatos em apenas 1.367 dos 5.559 municípios brasileiros.
O tripé partidário da coalizão que apóia o governo Fernando Henrique se saiu melhor nesse aspecto e governará para 70 milhões de habitantes, quase o triplo da massa a ser governada pelo petismo. O PMDB administrará para um universo de 25 milhões de pessoas, o PSDB para 24 milhões e o PFL para 21 milhões. O número de habitantes sob o governo do situacionismo sobe para 93 milhões com as prefeituras conquistadas pelo PTB (13 milhões de pessoas) e o PPB (10 milhões), partidos que também pertencem à base governista.
Trata-se de uma vantagem quantitativa, que indica a forte reserva eleitoral do governismo, admite o documento analítico da direção petista, a qual contudo, acrescenta, deve ser mediada por outras variáveis. Entre essas variáveis, a oposição considera que, embora não exista uma dissidência programática no bloco de poder, pôs-se em curso em seu núcleo uma luta feroz em torno da distribuição de poder entre os partidos que o formam.
A disputa que ameaça trincar a base política de Fernando Henrique passa pela eleição dos presidentes da Câmara.


