Novo comandante do Exército é visto com maior traquejo político
General Tomás Ribeiro Paiva substitui general Júlio Arruda; troca ocorreu em meio a uma crise de confiança após ataques de 8 de janeiro
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de janeiro de 2023
General Tomás Ribeiro Paiva substitui general Júlio Arruda; troca ocorreu em meio a uma crise de confiança após ataques de 8 de janeiro
Marcelo Rocha, César Feitosa e Ranier Bragon - Folhapress 

Brasília - O novo comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, tem 62 anos e é considerado na capital federal como um militar com maior traquejo político, incluindo a proximidade com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem foi ajudante de ordens, e com o atual vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB). A troca no comando foi oficializada na noite de sábado (21), após a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de demitir do posto de comandante do Exército, o general Júlio Cesar de Arruda.
Atual comandante militar do Sudeste (responsável por São Paulo), Tomás Paiva chegou em 2019 ao posto de general de Exército, o mais alto da carreira, passando a integrar o Alto Comando da Força. Ele está na linha sucessória natural, sendo o mais antigo detentor de quatro estrelas do Alto-Comando, ao lado de Valério Strumpf.
Em 2022, quando havia tentativas de contato com o Exército por parte de petistas, que então lideravam a corrida presidencial com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o nome de Tómaz era citado nos bastidores como uma das possíveis pontes.
Em discurso na quarta-feira (18) durante uma cerimônia no QGI (Quartel-General Integrado), em São Paulo, o novo comandante do Exército disse que o resultado das urnas deve ser respeitado, independentemente do presidente exercendo o mandato. Em um discurso incisivo de defesa da institucionalidade, pediu o respeito ao resultado das eleições e afirmou que o Exército é apolítico e apartidário. Tudo isso em meio ao impacto dos ataques golpistas de 8 de janeiro.
Sem citar o nome de Lula, o comandante afirmou que "não interessa quem está no comando, a gente vai cumprir a missão do mesmo jeito". Disse também que ainda que houvesse um "turbilhão, terremotos, tsunamis", continuarão coesos, respeitosos e garantindo a democracia.
Em outro trecho, afirmou: "Quando a gente vota, tem que respeitar o resultado da urna. Não interessa. Tem que respeitar. É isso que se faz. Essa é a convicção que a gente tem que ter. Mesmo que a gente não goste", afirmou. "Nem sempre a gente gosta. Nem sempre é o que a gente queria. Não interessa. Esse é o papel de quem é instituição de Estado. Instituição que respeita os valores da pátria, como de Estado."
Entre outras atuações no Exército, Tomás foi também subcomandante da Minustah (Missão de Estabilização da ONU, no Haiti).
Tomás, como é chamado, já havia sido cotado para o cargo, mas alguns petistas temiam que sua grande capacidade de articulação o tornassem numa força independente, assim como Eduardo Villas Bôas foi quando escolhido por Dilma Rousseff (PT) no fim de 2014 - o ex-comandante foi o artífice da volta dos fardados à política. Tomás foi chefe de gabinete de Villas Bôas.
'FRATURA' NA CONFIANÇA
Durante o anúncio da troca, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou ter havido uma "fratura" na relação de confiança com a Força e que a decisão pela troca teve o objetivo de estancar o problema "logo no início".
"Evidentemente que com esses últimos episódios, a questão dos acampamentos, a questão do [ataque] dia 8 de janeiro, as relações no comando do Exército sofreram uma fratura no nível de confiança. Achávamos que podíamos estancar isso logo no início", disse Múcio no breve discurso ao lado do novo comandante, que não se pronunciou.
A troca no Exército, a principal das três Forças Armadas, ocorreu em meio a uma crise de confiança aberta após os ataques do dia 8 de janeiro, em Brasília.
Arruda tinha sido nomeado para o comando da Força em 28 de dezembro, antes da posse de Lula como presidente. Ele havia sido escolhido por critério de antiguidade pelo ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.
Segundo auxiliares do presidente, a decisão foi tomada porque Arruda não demonstrou disposição de tomar providências imediatas para reduzir as desconfianças de Lula em relação a militares do Exército após a invasão do Palácio do Planalto e das sedes do STF (Supremo Tribunal Federal) e do Congresso. Arruda relutou em expor o Comando Militar do Planalto, que no mínimo falhou no dia 8.
Arruda convocou reunião na manhã deste sábado (21) com o Alto Comando da Força para confirmar ao generalato a decisão de Lula. Três generais que participaram da reunião virtual afirmaram à Folha que Arruda não deixou claro qual teria sido a principal motivação para sua demissão.
Ele disse, segundo os relatos, que, na sexta-feira (20), passou horas junto com Lula em reunião que foi considerada produtiva sobre investimentos em projetos estratégicos na área da defesa.
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