O ministro da Marinha, almirante Mauro César Pereira, disse ontem que a Marinha vê com ‘‘preocupação’’ a criação do Ministério da Defesa, que deve ocorrer no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele lamentou o fato de não haver ‘‘uma definição política’’ do governo sobre a criação do Ministério da Defesa e disse que a transição ao novo sistema ‘‘precisa ser organizada’’.
Pereira defendeu maior discussão sobre essa proposta. O assunto está em discussão há quatro anos, sob coordenação do Emfa (Estado-Maior das Forças Armadas), e era uma proposta do programa de governo apresentado por FHC na eleição de 1994. O projeto que cria a nova pasta foi enviado ao Congresso em novembro e faz parte da pauta da convocação extraordinária, cujo início será no dia 4 de janeiro.
‘‘Nos EUA, isso foi discutido meses a fio. Por que no nosso país não
podemos discutir, quando for preciso, para que haja consciência política efetiva da necessidade?’, perguntou Pereira. O ministro deu essas declarações em solenidade em comemoração do Dia do Marinheiro. Segundo ele, ‘‘quem sabe que tem algo que funciona admiravelmente bem tem medo de qualquer mudança’’. O ministro teme que a suposta falta de ‘‘definição política’’ dificulte a aceitação da proposta. ‘‘O que há de dificuldade, talvez, é que não houve uma definição política de como será feito.’
Pereira disse que FHC precisa preservar os três ministérios militares até a aprovação do projeto de lei complementar que extinguirá as pastas. Ele rejeitou a hipótese de extinção por medida provisória. FHC está determinado a nomear todos os ministros, inclusive o da Defesa, até a posse, em 1.o de janeiro. Se nomear o ministro da Defesa antes da aprovação do projeto, haverá cinco ministros militares durante a transição para a nova estrutura: Defesa, Exército, Marinha, Aeronáutica e Estado-Maior das Forças Armadas.
O ministro da Marinha não está sozinho na crítica à criação da pasta da Defesa e no temor sobre os desdobramentos militares. Em entrevista à revista ‘‘Airpower Journal’’, da força aérea norte-americana, o vice-chefe da Aeronáutica, brigadeiro Frederico de Queiroz Veiga, criticou a proposta. Para ele, o novo ministério poderá trazer ‘‘prejuízos’’ como ‘‘perda de contatos diretos do nosso comandante com o presidente da República, risco de designação de ministro sem nenhuma afinidade com os assuntos relacionados à Defesa e politização do cargo de ministro e das Forças Armadas’’.
Veiga afirmou que ‘‘a existência de um ministério da Defesa, pura e simples, não ganha nenhuma guerra’’. Na opinião dele, tudo o que pode ser conseguido com a nova estrutura também pode ser alcançado com os atuais
ministérios.

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