Curitiba - O professor Clodomiro Bannwart, do departamento de filosofia da UEL (Universidade Estadual de Londrina), alerta que o tema das fake news ainda vai render muita análise e reflexão, sobretudo quando se fala em eleições. "No processo eleitoral, o que mais precisamos para tomar uma decisão acertada e bem deliberada é reter informação. O direito à informação é um elemento imprescindível para quem vai fazer escolhas", destaca.

Ele explica que a comunicação parte de alguns pressupostos necessários. "Para que possamos nos entender, precisamos estar dentro da mesma estrutura gramatical e de linguagem. E, mais do que isso, dentro de um pacto semântico que permita, por meio da linguagem, alcançar certo entendimento. Existe pretensão de verdade naquilo que falamos, correspondente aos fatos. Isso me parece tão razoável que, até para contar uma mentira tem de partir desse pressuposto".

Ou seja, quando você inventa e espalha notícias inverídicas, acaba "matando" tais pretensões. "O que eu falo e o que você responde cria um vínculo, uma expectativa de comportamento. A pretensão de verdade requer fatos e a pretensão normativa pressupõe uma postura ética, de sinceridade em relação ao que pensamos. As fake news matam essas pretensões. Quebra-se a pretensão de verdade e de comportamento, de confiança. Consequentemente, esculhambam com o direito à informação", prossegue.

Ainda de acordo com Bannwart, se feito de forma intencional, o fenômeno das fake news é muito ruim, porque "está alijando o cidadão, está retirando dele o direito a uma informação qualificada, para que possa tomar uma decisão também qualificada". O professor reitera, porém, que não se trata de algo novo. "A gente tem de entender que esse fenômeno sempre existiu. É uma instrumentalização da linguagem. Ela sempre foi instrumentalizada, seja por meio da retórica, do engodo ou da mentira", afirma.

IMPACTO DAS REDES

O que acontece, conforme o professor, é que as redes sociais aumentam o impacto das notícias falsas. "O discurso político sempre foi muito aberto a recepcionar esse tipo de argumentação. O problema é que isso foi potencializado com as mídias sociais. É um elemento agravante. Hoje todos que estão operando as mídias sociais se acham editores de notícias e são muitas vezes propagadores de notícias falsas".

Para Bannwart, as fake news depõem contra a informação e não são transparentes, porque não permitem a revelação daquilo que é verdadeiro. "Isso é traumático para a democracia. Temos um desafio muito grande de pensar nesse fenômeno. Não vejo que tenhamos saídas desenhadas no nosso horizonte. É um tema que vai render e exigir muita reflexão de quem trabalha na área da comunicação e na área do conhecimento interdisciplinar. É um fenômeno bastante impactante para as democracias ocidentais, que prezam pela informação, pela transparência e pela publicidade do conhecimento".

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