Brasília - A existência de notas fiscais frias, até mesmo de empresas que sequer existem, entre os documentos entregues à perícia da Polícia Federal (PF), pode complicar a defesa do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que responde a processo de quebra de decoro no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado. Entre os papéis duvidosos, estão as notas fiscais emitidas pelos frigoríficos GF Silva e Carnal Carnes, cujas inscrições na Fazenda Estadual estão extintas.
Os documentos dessas duas empresas haviam sido reprovados em laudo parcial feita pela PF em 19 de junho. O Instituto Nacional de Criminalística (INC) começou ontem a contagem regressiva de 20 dias para concluir a perícia definitiva nos documentos, com os quais Renan tenta provar que provém das rendas agropecuárias o dinheiro usado no pagamento de pensão à jornalista Mônica Veloso, com a qual ele tem uma filha.
O processo será retomado em agosto, na volta do recesso parlamentar, e o laudo do INC será peça chave para o julgamento. A perícia engloba 30 questões formuladas pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, abrangendo a autenticidade dos documentos e a comprovação das operações com gado.
Renan alega ter faturado R$ 1,9 milhão em quatro anos com a venda de bois. O Conselho de Ética e Decoro pediu à PF para analisar a evolução patrimonial do senador de 2003 para cá e conferir as provas de que saiu da conta dele o dinheiro da pensão.
Como Renan alega que a pensão era paga em espécie, o Conselho de Ética quer saber, ao menos, se o dinheiro da venda dos bois foi depositado na conta dele.
Renan postergou o quanto pôde a investigação e usou o recesso para reforçar a defesa. Ontem, ele foi para Alagoas, onde fica até o fim de semana em contatos políticos com prefeitos e aliados, na tentativa de explicar a delicada situação que enfrenta. Ele alegou inocência e afirmou aos aliados que não renunciará à presidência do Senado ou ao mandato.
No contato com os aliados, Renan entregou cópia de um dossiê de defesa, no qual relata que a origem do dinheiro está na venda de bois entre 2003 e 2006. A perícia analisará a inidoneidade das empresas que, conforme o senador, teriam adquirido o gado de suas fazendas em Alagoas.
Na primeira perícia, a PF havia diagnosticado mais de 20 inconsistências na documentação de defesa do senador, entre as quais, incompatibilidade na cronologia entre as datas das operações com os cheques de pagamento e os recibos. Notou também que vários recibos eram frios. O Senado encomendou uma perícia completa, mas uma série de manobras protelatórias adiou o início dos trabalhos.
As declarações de renda dos últimos quatro anos do senador foram juntadas aos demais documentos a serem periciados - notas fiscais de venda de gado (com canhotos), recibos de pagamento, atestado de vacina do rebanho, livro-caixa das propriedades e Guias de Trânsito Animal (GTAs).

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