Nova York O mundo está perdendo a guerra contra a fome. É com essa incômoda constatação que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai reunir segunda-feira, em Nova York, 60 chefes de Estado e de governo para convocar uma mobilização internacional em torno da busca de soluções urgentes para financiar projetos de desenvolvimento. Aos que atenderam o seu convite para o encontro, batizado de ''Ação contra a Fome e a Pobreza'', Lula apresentará um relatório do grupo técnico formado por Brasil, Chile, França e Espanha.
O documento é taxativo: para alcançar as Metas do Milênio será necessário um crescimento econômico per capita da ordem de 3% ao ano até 2015. Os países em desenvolvimento, em conjunto, cresceram apenas 1,6% de 2001 a 2003. Na América Latina, experimentaram queda no Produto Interno Bruto (PIB) no mesmo período. Pior: na África subsaárica, o número de pessoas pobres pulou de 164 milhões para 314 milhões desde 1981. Dados das Nações Unidas e do Banco Mundial indicam a necessidade de aumento no volume dos recursos destinados aos países pobres em pelo menos US$ 50 bilhões por ano até 2015.
''O maior escândalo não é que a fome exista, mas que ela continue a existir quando temos os meios para erradicá-la. É chegada a hora de agir'', diz a declaração que será assinada pelos líderes mundiais, no fim da reunião com Lula. ''A fome não pode esperar.'' O texto destaca ainda que ''enfrentar a pobreza e a injustiça social no mundo é vital para a segurança e a estabilidade de todos os países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento''.
O encontro promovido por Lula será realizado um dia antes da 59 Assembléia-Geral da ONU, que ele vai abrir. Os indicadores da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) são dramáticos: 842 milhões de pessoas sofrem de subnutrição crônica e, deste total, 100 mil morrem por dia de fome. Trinta mil são crianças de até 5 anos. A pobreza extrema afeta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, que sobrevivem com menos de US$ 1 por dia.
A proposta preparada pelo grupo técnico do Brasil, Chile, França e Espanha os quatro países que subscreveram a Declaração de Genebra, em janeiro, com o apoio do secretário-geral da ONU, Kofi Annan abre um leque de oito opções para financiar estratégias de desenvolvimento. A lista abriga desde alternativas simples, como as contribuições voluntárias por meio de cartão de crédito, até as mais polêmicas, caso da taxação sobre movimentações financeiras, conhecida como ''CPMF internacional'', que foi condenada pelos Estados Unidos.
A idéia de taxar os paraísos fiscais e usar o dinheiro arrecadado para atenuar a fome no mundo também é citada no relatório, mas o governo brasileiro admite que sua aplicação seria muito difícil.

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