Noronha vai para a ''geladeira'' na Polícia
Rubens Burigo Neto
De Curitiba
Um dia depois de ter sua prisão temporária revogada, o delegado João Ricardo Képes Noronha não se apresentou ao Grupo Auxiliar de Recursos Humanos da Polícia Civil (GARH), em Curitiba. Noronha deveria comparecer ao GARH para justificar sua ausência do trabalho durante os últimos 38 dias em que se manteve foragido da Justiça.
No âmbito da Secretaria da Administração, Noronha já responde a três processos administrativos. O primeiro, por quebra de hierarquia, ao não comparecer para depor na CPI do Narcotráfico. O segundo, por não aparecer para prestar depoimento à comissão criada pelo governo para averiguar envolvimento de policiais no crime organizado. A terceira, por abandono de emprego.
Por enquanto, Noronha vai para a geladeira. Ele vai ficar no corredor. Não sabemos ainda como aproveitá-lo até o final das investigações, adiantou ontem o delegado-geral da Polícia Civil, Leonyl Ribeiro. Leonyl disse que a assessoria jurídica do GARH vai analisar as alegações de Noronha. Se comprovada a culpa do ex-delegado-geral, ele pode ser expulso da corporação e do quadro do funcionalismo público, segundo a Polícia.
Vou provar minha inocência, esbravejou ontem Noronha, durante nova entrevista pela manhã a uma emissora de rádio. Pelo Estatuto da Polícia Civil, por estar afastado do cargo ele não é obrigado a registrar o ponto diariamente no local onde desempenha suas funções. A sua reapresentação também não suspende o corte (previsto nos estatutos da polícia e do funcionalismo) de 50% de seu salário mensal até o final dos processos.
Noronha vinha recebendo R$ 10.906,00, como delegado de carreira de primeira classe, mais os benefícios do cargo em comissão. Em março, ele já passou a receber metade do salário. Se for absolvido das acusações, o delegado terá de volta a soma das parcelas descontadas. Uma condenação leva à perda do emprego, além das consequências criminais.
O reaparecimento de Noronha a partir da obtenção de habeas-corpus no Tribunal de Alçada, anteontem, passa, no entendimento da cúpula da Polícia Civil, a facilitar o andamento dos processos abertos contra ele. O corregedor da PC, Paulo Brenny, não quis entrar em detalhes sobre o trâmite dos processos, mas garantiu que, independente do conteúdo, todas as denúncias contra Noronha serão investigadas. Estamos numa situação diferente, não sabemos onde nos posicionar, não sabemos quem tem razão. Teremos muita cautela, declarou Brenny, referindo-se à questão disciplinar, das denúncias de que o narcotráfico é comandada por policiais no Paraná.
Ao falar do assunto depois de uma solenidade de premiação de policiais destacados para a Operação Eco-Verão 2000, o delegado-geral reforçou a posição do corregedor. Leonyl considerou que o reaparecimento de Noronha pode ajudar nas investigações sobre o envolvimento de policiais com o crime organizado. Agora poderemos ouvir o outro lado da história, complementou. (Colaboraram Luciana Pombo e Giovani Ferreira)





