Paramaribo, (Suriname) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar ontem a postura dos países ricos no comércio internacional, desta vez numa cidade do Caribe, região com forte influência dos Estados Unidos e da Comunidade Européia. Na abertura da XVI Conferência dos Chefes de Estado do Caribe (Caricom), em Paramaribo, capital do Suriname, Lula defendeu a candidatura do chileno José Miguel Insulza à presidência da Organização dos Estados Americanos (OEA), que enfrentará o ex-presidente de El Salvador Francisco Flores, apoiado pelo governo de Washington.
Lula também pediu votos para o candidato do Brasil à chefia da Organização Mundial do Comercio (OMC), Luiz Felipe de Seixas Correia. ''O poder político dos ricos só poderá ser contrabalanceado com o poder político dos pobres'', disse Lula, de improviso. ''Somos pequenos, somos pobres, mas temos um povo que sabe o que quer.''
Aplaudido de pé pelos 13 chefes de Estado da Caricom e pelos demais presentes a reunião da conferência no Congress Hall, Lula justificou sua ausência do Brasil no período em que ocorreram mortes de líderes rurais e o Senado e a Câmara elegeram seus novos presidentes e rebateu críticas a atenção dada pela política externa do seu governo aos países em desenvolvimento.
O presidente disse que estava ''muito orgulhoso'' em participar como convidado da Caricom, o que segundo ele, ''não é uma coisa pequena que acontece na política externa''. ''Podemos falar línguas diferentes, mas o jeito de viver, a cor e a alegria de nossos povos são os mesmos'', disse. ''Somos todos filhos de índios e negros.''
Lula defendeu a proposta de um acordo de redução de tarifas entre o Mercosul e a Caricom, como ocorreu com a Comunidade Andina. O presidente deixou claro que o Brasil não pretende acabar com as concessões dadas pela Comunidade Européia aos países caribenhos nos embates para a redução dos subsídios agrícolas, um dos argumentos usados pelos países europeus nas disputas no âmbito da Organização Mundial do Comercio (OMC). ''Jamais vamos impor prejuízos aos países do Caribe'', assegurou. ''Se o Brasil ou qualquer país da Caricom tentar encontrar sozinho a solução para os seus problemas, a chance será pequena.'' O presidente ressaltou que ''juntos'' os países pobres terão mais força e poder no mundo globalizado.
Lula admitiu que, durante o período em que atuou como sindicalista, entre 1975 e 1980, fez várias viagens aos países nórdicos, aos Estados Unidos e ao Canadá e nunca visitou a África, o Caribe e os vizinhos sul-americanos. ''Embora o meu País tenha conquistado a independência em 1822, a verdade é que a cabeça da elite política brasileira esteve voltada aos países desenvolvidos'', afirmou. Ele salientou que, ao assumir o governo, as relações dos países do Mercosul estavam ''falidas''. ''Aconteceu algo inacreditável: recuperamos o Mercosul.''
No discurso, Lula comentou a situação do Haiti e pediu a ajuda dos chefes de Estado do Caribe para apoiar o Brasil na ação para garantir a segurança e a democracia no país. Após a reunião, ele se encontrou com o presidente do Suriname, Runaldo Venetiaan, e representantes da comunidade brasileira no país. Formada na sua maioria por garimpeiros, a colônia tem cerca de 40 mil pessoas. Lula aproveitou a viagem ao Suriname para fechar acordo de troca de presos e protocolos na área de saúde e imigração.
Localizado na região norte da América do Sul e vizinho do Brasil, o Suriname ainda guarda marcas da colonização holandesa nas ruas e no casario de madeira do período colonial. Com a viagem a Guiana e ao Suriname, o presidente completou o giro pelos 11 países independentes que formam com o Brasil a América do Sul. Ele só não foi a Guiana Francesa, território da França.

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