Nicolau nega envolvimento com desvio
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quinta-feira, 14 de dezembro de 2000
Julia Duailibi e Lilian Christofoletti Agência Folha De São Paulo 
O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, de 72 anos, foi interrogado ontem pela Justiça e negou qualquer envolvimento com o desvio de R$ 169,5 milhões da obra do Fórum Trabalhista de São Paulo. Ele foi ouvido no prédio da carceragem da Polícia Federal, onde está preso desde a última sexta-feira, depois de 722 dias de fuga.
Vestindo camisa com as iniciais bordadas, as costas arqueadas e a voz rouca, Nicolau respondeu, durante aproximadamente uma hora e 20 minutos, às perguntas feitas pelo juiz Casem Mazloum, da 1ª Vara Criminal Federal. Desde que foi preso, o ex-juiz toma comprimidos para dormir.
No interrogatório, Nicolau reafirmou a versão apresentada por ele no depoimento que prestou à Justiça no dia 11 de abril deste ano. Na ocasião, o ex-juiz foi ouvido por duas horas e meia no processo em que é acusado de evasão de divisas e de lavagem de dinheiro.
Nicolau negou ter conta bancária nas Ilhas Cayman, no antigo Banco Noroeste. O Ministério Público Federal detectou US$ 5 milhões na conta, que atualmente tem o saldo negativo de US$ 28 mil. Ele admitiu, entretanto, ser o titular da conta na Suíça, no Banco Santander, cujo saldo chegou a ser de US$ 6,8 milhões atualmente, com US$ 3,8 milhões, está bloqueada.
A explicação dada por Nicolau no primeiro depoimento e mantida no interrogatório de ontem é que os recursos seriam provenientes de uma herança de família. Segundo ele, a herança veio de um tio alfaiate. O parente, marido da irmã de sua mãe, seria dono da então mais renomada alfaiataria de São Paulo, chamada Cursio Alfaiataria. Nicolau teria recebido desse tio US$ 200 mil por trabalhos prestados no encerramento da empresa e outros valores por afetividade.
No processo em que foi ouvido ontem, Nicolau é acusado de peculato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e corrupção passiva pelo desvio de R$ 169,5 milhões da obra do TRT. Além dele, são réus no mesmo processo o ex-senador Luiz Estevão e os empresários José Eduardo Teixeira Ferraz e Fábio Monteiro de Barros, da Construtora Incal, que executou a obra.
No interrogatório, Nicolau disse que telefonou três ou quatro vezes para o ex-senador. O ex-juiz afirmou não se recordar com exatidão dos motivos que o levaram a telefonar 59 vezes para as empresas do Grupo OK, mas disse que os temas não foram a obra do Fórum. Com os empresários Fábio Monteiro de Barros Filho e José Eduardo Teixeira Ferraz, afirmou ter mantido contatos frequentes em razão da obra.
Segundo a procuradora Janice Ascari, as declarações do ex-juiz não alteram o andamento do processo criminal. O depoimento foi curto, e ele negou todas as acusações. Não trouxe nenhuma novidade, como já era esperado. A procuradora deve apresentar hoje aditamento à denúncia e pedirá a inclusão nos autos de documentos enviados pelo Departamento de Justiça norte-americano que comprovariam transferências de US$ 1,05 milhão de contas no exterior de Estevão para contas na Suíça do ex-juiz.


