Nicolau e Estevão ficam frente a frente
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de janeiro de 2001
Julia Duailibi e Lilian Christofoletti Agência Folha De São Paulo 
Mais de 100 policiais, quatro carros tipo Blazer, sendo que dois com vidros escuros e blindados, batedores, homens usando metralhadoras, fuzis, escudos e capacetes. Este foi o esquema inédito montado pela Polícia Militar e pela Polícia Federal para transferir um único preso: o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto. O ex-juiz tinha de comparecer ontem ao depoimento das testemunhas de defesa de Fábio Monteiro de Barros e José Eduardo Teixeira Ferraz, réus no processo que apura o desvio de verba da obra do Fórum Trabalhista de São Paulo.
Foi a primeira vez, após a prisão de Nicolau, que todos os envolvidos no escândalo do TRT se encontraram, inclusive o ex-senador Luiz Estevão. O encontro foi na sala do plenário do Fórum Criminal Federal, na Praça da República, região central de São Paulo. Pálido e andando com dificuldades, Nicolau foi escoltado por oito policiais federais até um banco, ao lado dos empresários. Queixou-se de dores nas costas e foi removido de lugar. Ficou próximo a Estevão. Durante a audiência, os quatro permaneceram em silêncio, acompanhando os depoimentos com 30 minutos cada.
Das quatro testemunhas agendadas, duas foram canceladas uma morreu há menos de um mês e a outra alegou problemas cardíacos. O primeiro a depor foi Vicente de Paula Marques de Oliveira. Ele falou sobre o passado da construtora Incal, responsável pela obra. Oliveira trabalhou na prefeitura no governo de Jânio Quadros (85-88), quando a Incal prestou serviços ao município de São Paulo. Depois foi ouvido o arquiteto Julio Neves, amigo da família de Barros, que falou de maneira genérica sobre o mercado de construção.
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a sessão de ontem não trouxe novidades. Uma das testemunhas disse que tinha conhecimento dos fatos pela imprensa. O depoimento foi técnico e não tem validade porque eles não são peritos. Apenas emitiram suas opiniões, afirmou a procuradora Thaméa Valiengo.
As Polícias Federal e Militar informaram que a megaoperação montada tinha a preocupação de preservar o preso. O receio era de que manifestantes pudessem causar algum tipo de acidente. A rua que dá acesso ao fórum chegou a ser fechada. Quando chegou, Nicolau desceu de um dos carros usando coletes à prova de balas e com a cabeça protegida pelas mãos de um policial. Em volta dos carros, um cordão de 45 policiais afastava os curiosos.
Na saída do Fórum, Estevão agrediu com um empurrão um manifestante que o chamou de ladrão. Ele olhou para a pessoa e pediu que, se tivesse coragem, repetisse. O manifestante se aproximou e, frente a frente, gritou: Ladrão. Estevão empurrou-o, virou as costas e foi embora em uma Mercedes. O ex-senador reafirmou que é inocente e vítima de um complô da imprensa e do mentistério público, expressão que usou para se referir ao MPF.


