ReproduçãoAmenizadorNey Braga e o general Castelo Branco: homem do regime militarO ex-governador Ney Braga não faz revelações bombásticas no livro de memórias ‘‘Tradição e Mudança na Vida Pública’’, que retrata os 40 anos de sua carreira política. Pelo contrário, mais uma vez conseguiu imprimir o espírito conciliador de um homem que esteve no poder durante anos e que não tem a intenção de polemizar mais. O livro, lançado sexta-feira no auditório da biblioteca da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Curitiba, é uma longa entrevista ao jornalista Adherbal Fortes de Sá Junior, com a participação do jornalista Gladimir Nascimento
‘‘Os offs do ex-governador Ney Braga poderiam ter rendido um outro livro, bem melhor’’, avalia Adherbal, que admite ter sido ‘‘engessado’’ pelo entrevistado. ‘‘O livro-entrevista tem que ser lido pelo que está escrito e por aquilo que não estᒒ, aconselha o jornalista, que diz que ‘‘as omissões são propositais e uma exigência de Ney Braga’’. ‘‘Os lapeanos são assim mesmo’’, conforma-se.
A história contada em forma de entrevista pode frustrar os leitores ávidos por informações picantes. Ney Braga ameniza a maioria dos episódios políticos e pouco relata sobre os bastidores do poder no Paraná. O ex-governador deixou de lado as desavenças políticas que acumulou durante anos. Os ex-governadores Paulo Pimentel, um aliado que acabou se tornando adversário político; e Haroldo Leon Peres, governador do Paraná nomeado pelo governo Médici e forçado a renunciar por envolvimento num escândalo com a empreiteira C.R. Almeida, são tratados como figuras acessórias.
‘‘No caso Leon Peres, o Ney só faltou dizer que o ex-governador era uma figura simpática’’, comenta Adherbal, emendando que ‘‘a surpresa maior veio depois’’, quando questionou o ex-governador sobre o motivo do ‘‘deixa pra lᒒ. ‘‘Ele (Ney Braga) disse que não ia se aprofundar porque Leon Peres já estava morto e a família ainda vivia em Curitiba. Uma prova de que é incapaz de machucar as pessoas’’, constata Adherbal.
Até nos detalhes, o ex-governador tentava passar a sua caneta. Adherbal conta que teve dificuldades até para convencê-lo a autorizar a publicação da marca de cigarro, Olinda, que fumava quando adolescente na Lapa. ‘‘Ele justificou que não pegaria bem, logo agora que estava empenhado numa campanha anti-fumo’’, conta.
Valor histórico - A entrevista concedida por Ney Braga é um prato cheio para os historiadores. Foi dividida cronologicamente de acordo com a vida pública do ex-governador, que também foi senador, deputado federal e ministro de Estado por duas vezes. O relato vai desde o seu primeiro cargo político como ‘‘chefe de Polícia’’ (equivalente ao cargo de secretário de Segurança) do então governador do Paraná, Bento Munhoz da Rocha, nos anos 50, até sua gestão da Itaipu Binacional, em 1982.
Adherbal Fortes de Sá Junior conta que o primeiro governo de Ney Braga no Paraná teve um tratamento especial no livro. ‘‘O governo de 60 mudou a cara do Paraná. Pessoas que estavam lá, ao lado do Ney, ressurgem hoje no governo Jaime Lerner’’, observa, referindo-se ao secretário do Desenvolvimento Urbano, Alex Beltrão, e ao consultor técnico de Lerner, Karlos Rischbieter. ‘‘A presença deles não é coincidência. Essa gente, como o Ney Braga, olha as coisas de helicóptero, de forma macro.’

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