Nepotismo, forma de ''jeitinho''
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terça-feira, 05 de setembro de 2000
Luiz Geraldo Mazza 
Irreverentes sugerem que os sobrinhos (nepotes) do Papa poderiam ser seus filhos. Mas, se não eram assim, acabavam tratados como tal. No Paraná, não há atrativos no Executivo e no Legislativo para o exercício dessa prática secular, presente na Carta de Pero Vaz de Caminha. Mas é claro que existem nos tribunais, especialmente o de Justiça e o de Contas.
É clássica a passagem de Nhô Guata, Guataçara Borba Carneiro, na condição de governador, quando nomeou seu filho, Paulo, para o Tribunal de Contas. Alguém resmungou, achando aquilo antiético e Guataçara, que não aceitava desaforo, mesmo sob a forma sutil, reagiu no seu estilo rude: Vosmicê queria o quê? Que eu nomeasse o seu filho?
Certa ocasião, num programa da TV Canal 6, o âncora Nuevo Baby leu a notícia da nomeação de um cartorário pelo pai, desembargador. Fiz uma preleção sobre as raízes mais remotas do patriarcalismo, a herança lusitana, o racha de terras e feudos nas capitanias donatárias e, é claro, na máxima ironia, mostrei que era normalíssimo o pai nomear o filho. À tarde, para minha surpresa, sou visitado pelo assessor do presidente do tribunal que, como todo bom profissional da área, tentou traduzir os sentimentos do assessorado, me elogiando pela lição de conhecimentos etc. Descobri-me anticomunicador.
Passados alguns dias, fui jantar num restaurante das Mercês com minha mulher e, quando pedi a conta, o garçom me disse que ela estava paga. Quando busquei saber quem era me aparece na sala, vibrando também com o meu speach, o próprio beneficiário do cartório a agradecer-me com entusiasmo exagerado.
Só não abandonei o jornalismo por absoluta incapacidade de comunicação, porque tenho uma filha, formada nessas artes, mais um neto no primeiro e um sobrinho no segundo ano do curso. De repente, quem sabe arrumo uma boca para eles. Afinal isso é a normalidade, como se provou nos meus desencontros.
- LUIZ GERALDO MAZZA é colunista da Folha


