Alteração na Lei Orgânica de São João do Ivaí (75 km ao sul de Apucarana) permitiu a contratação de parentes do prefeito Clóvis Bernini Jr (PMDB) e do presidente da Câmara de Vereadores, José Eugênio de Queirós (PMDB), na administração municipal. Até o final de 2006, o dispositivo legal que foi revogado proibia o nepotismo, inclusive cruzado, na prefeitura e demais órgãos públicos locais.
A Folha identificou pelo menos quatro parentes ocupando cargos comissionados na prefeitura: a esposa e um tio do prefeito - respectivamente chefe do Departamento de Ação Social e secretário de Obras -, e dois cunhados do presidente da Câmara (secretária de Educação e assessor de imprensa).
Em meados de 2006, o advogado e morador de São João, Joceir de Carvalho Guilherme, levou reclamação ao Ministério Público (MP) alegando que o nepotismo fere os princípios constitucionais da impessoalidade e moralidade na administração pública. ''Minha queixa não é de natureza pessoal, eu conheço várias destas pessoas. O que acho errado é contratar os parentes em desacordo com a lei'', afirmou. Segundo o advogado, a Câmara Municipal revogou a proibição do nepotismo após sua reclamação ao MP.
O prefeito Clóvis Bernini negou que houvesse parentes seus ou de vereadores em cargos comissionados do município. ''Não tem parente, isso não é verdade. A única pessoa que trabalha comigo é minha esposa, que responde pela Ação Social. Mas isso já é tradicional e acontece em todos os municípios do Paraná'', disse, em referência à ocupação das primeiras-damas. Sobre a mudança na legislação municipal, o prefeito disse que não se lembrava ''de nada''. ''Isso você tem que ver na Câmara.''
No entanto, o assessor de imprensa da prefeitura, Luis Leão, admitiu que o secretário de Obras do município, Haroldo Bernini, também é parente do prefeito. ''É tio dele. Mas não tem como falar nada porque é o cara que mais trabalha na prefeitura'', defendeu. O próprio assessor de imprensa também é alvo da denúncia levada ao MP, já que é cunhado do presidente da Câmara. Segundo ele, a alteração na lei não foi feita para legalizar o nepotismo, mas para corrigir uma irregularidade. ''A proibição dos parentes tinha sido feita por decreto da mesa e a lei não permite isso. Tinha que ser por emenda à Lei Orgânica. A alteração que a Câmara fez visou corrigir esse problema.''
A promotora em São João do Ivaí, Roberta Winter Sugauara, confirmou à FOLHA o recebimento da reclamação sobre nepotismo, mas disse que a alteração da lei impediu a adoção de ação judicial. ''Não havendo lei em vigência, nem informação de que haveria abuso na contratação de parentes no Executivo Municipal, não haveria motivos, até o momento, para ingresso de qualquer ação questionando nepotismo.''
A reportagem da FOLHA não conseguiu localizar o presidente da Câmara, José Eugênio - que está de férias.

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