'Neoliberalismo sustenta a corrupção'
Palmério Dória - O senhor é acusado de retrógrado, entre outras coisas, pelas suas posições contra os transgênicos.
O Paraná não tem transgênicos. Temos menos de meio por cento da nossa cultura de soja contaminada pela transgenia. Qualquer coisa acima de 1% faz com que o mercado internacional considere o produto transgênico. Estamos vendendo os nossos produtos 20% acima do valor de mercado. Então, por que vamos poluir a nossa safra, perder receita, para estimular um jogo da Monsanto de cobrar patentes sobre a agricultura brasileira? E existe o problema da precaução, ninguém sabe onde é que vão os transgênicos.
João de Barros - O senhor já expôs isso ao presidente Lula?
Muitas vezes. Na última vez que conversei com ele, na casa do Zé Dirceu, ele disse: ''Requião, pode sair daqui, está a Globo aí na frente, pode dizer que o Paraná vai ser uma zona livre de transgênicos''. Eu sai e disse: ''Saio daqui com a palavra do presidente de que o Paraná vai ser uma zona livre de transgênicos''. Não aconteceu isso.
Sérgio de Souza - Por quê?
Porque o Roberto Rodrigues e o esquemão que pressiona o governo federal jogaram de forma contrária. Tenho a impressão de que a crise atual do governo Lula se deve em parte à maneira pela qual o Lula trata as leis no país. E esse caso dos transgênicos mostra isso de forma acintosa. Acho que a crise do governo Lula começou com o Collor. É a crise do modelo neoliberal imposto ao Brasil. Então, o que o Lula faz hoje? Ele se elegeu com o nosso voto, com a esperança do Brasil em uma mudança. Uma mudança na condição da política econômica, fundamentalmente. Daí, através da Fazenda e do Banco Central, ele adere ao modelo. Quando adere ao modelo, ele não tem mais voto no Congresso Nacional. Que, bem ou mal, é composto por brasileiros que sentem a pressão das suas bases. Que gostaria muito de votar numa política de mudança. Agora, quando a política é a continuidade da política do Collor e do Fernando Henrique, esse pessoal não vota porque não acredita nisso. Então tem que ser comprado para votar. E eles ficam numa encruzilhada, num beco sem saída. Qual é o beco? Se votarmos tudo isso aí, vamos ter o repúdio da base eleitoral, que quer que o Brasil cresça, se desenvolva e gere emprego. Então, só tem uma saída para a nossa sobrevivência: o clientelismo político. Então queremos as emendas e queremos o mensalão. Eles se defendem dessa forma. Agora, se uma bandeira positiva fosse levantada no Congresso Nacional, o Lula não ia precisar desse jogo, o jogo da corrupção. Quem corrompe não é o Lula. O Lula tem uma história de integridade, conheço o Lula há 35, quarenta anos.
Palmério Dória - Você o apoiou nas quatro campanhas?
Nas quatro campanhas e ele não é ladrão. Não posso imaginar o Lula com 1 real de recurso público. Ele não teria nem como gastar isso saindo do governo, como usar isso, ele é um sujeito de uma integridade indiscutível. Quem é que sustenta a corrupção do Congresso? Quem aproveita é que paga. Esse dinheiro está saindo dos banqueiros, das multinacionais, do agronegócio e dos exportadores. E o pessoal cobra para votar porque sustenta o mandato com clientelismo na sua base. Porque não tem bandeira. Ou você faz uma política de atitude, quer dizer, estou votando pelo Brasil, então tenho discurso, ou você tem que comprar a sua base. Com favores, ambulâncias, salários, funcionários, o problema básico é esse. O problema é o modelo econômico, que só pode funcionar com a corrupção do Congresso Nacional. Sem corrupção, o Congresso não vota a manutenção da política econômica.
Carlos Azevedo - O senhor tem maioria na Assembléia?
Eu não tenho nenhum deputado comprado, e não libero emenda de deputado. Eles fazem as emendas e eu não liberei uma até hoje. Eu não trafico com a Assembléia Legislativa. Eu mando o projeto pra lá e digo para que serve o projeto, a que interesses ele atende, e a Assembléia vota. Se quiser votar contra, tudo bem.
Palmério Dória - Quando viu o nome do Palocci nesse processo de compra direta, o que o senhor pensou?
Eu acho que o Palocci não participa do processo de compra direta de voto. Quem participa do processo de compra é quem participou com o Collor, com o Fernando Henrique e participa agora. São os interesses que se beneficiam com essa política.
Palmério Dória - Em escala de roubo, onde se roubou mais, no governo Fernando Henrique ou agora no governo Lula?
A gente não precisa nem de um roubômetro para avaliar isso. O Fernando Henrique roubou 10.000 vezes mais do que qualquer possibilidade de desvio do governo Lula com a privataria.
José Arbex Jr. - Se o senhor estivesse na posição do Lula, o que faria?
Faria exatamente o que estou fazendo no Paraná, teria denunciado contratos predadores, acabava com essa conversa mole de que denunciar patifaria prejudica investimento, demonstrei que não é assim.
Sérgio de Souza - E as pressões?
Ah! Eu não sei o que é isso. Ninguém fala comigo.
José Arbex Jr. - Governador, o senhor tem planos para o futuro?
Eu não. Sou existencialista sartriano de esquerda. O meu projeto é terminar o governo do Paraná e terminar bem, como pretendi. Acabando o governo, posso montar outro projeto. Mas acho que qualquer desvio hoje desse projeto acabava com o governo.
João de Barros - Qual é seu projeto de governo?
É fazer um governo diferenciado no Brasil, na contramão da política econômica, mostrar que isso funciona. Enfrentar multinacional e mostrar que isso não acaba com investimento estrangeiro, que isso é necessário. Você respeita um contrato feito segundo as leis brasileiras, obedecendo a Constituição, o interesse público.
João de Barros - O senhor pinta um cenário de fim de governo?
Eu não, não pinto nada. Quem pinta é o governo. E o que eu vejo? Vejo o PFL batendo no Lula, não vi ninguém criticar o Palocci, eles querem a mesma política sem os sindicalistas. Sem o Lula, sem o pessoal do PT. O horror é que o PT tem ocupado cargos públicos que eram feudos da elite paulista, paranaense, baiana, esse é o horror, não há nenhuma contradição da oposição com o Palocci. Eles ficam dizendo: ''Mas como é que esse Lula, operário, agricultor, metalúrgico, torneiro é presidente da República?'' Não há nenhuma contradição. E, tem mais, essa CPI vai ser fria, porque esse dinheiro que está pagando hoje é o mesmo dinheiro que pagava no governo do Collor, é o mesmo que pagava no governo do Fernando Henrique a opinião do Congresso!
Sérgio de Souza - O senhor já ouvia falar isso antes, na mesada?
Claro! Isso é público e notório, dispensa prova em juízo. Sempre houve corrupção, mas ela se acentua no momento do neoliberalismo, da privatização. É continuidade da mesma política. Como é que se resolve isso? Acaba-se com essas emendas parlamentares? E o deputado federal tem que fiscalizar a União e formular leis para o Brasil. O que eles querem como alternativa? O voto distrital? Daí transforma o Congresso Nacional no congresso de Cuba. A política se resolve no congresso do Partido Comunista e o Congresso Nacional discute o quê? Água encanada? Rua asfaltada? Calçada? É o congresso do presidente da associação do bairro? Completamente desideologizado. É o último golpe, é o voto distrital. Ainda tem gente que defende essa merda, dizem que isso é reforma política!
Carlos Azevedo - Mas a reforma política é necessária, não?
Não, não é. Pra quê? Você vai fazer o que com ela? Você vai mudar o sistema de comunicação do Brasil? Você vai criar o financiamento público de campanha e vai deixar o SBT, a Globo e a Record, com todo o poder de comunicação que têm, podendo destruir e construir imagens? Reforçar e detonar políticas? Isso é uma ilusão!
José Arbex Jr. - Dentro do PMDB, por exemplo, com quem o senhor dialoga tendo essa plataforma?
Estou dialogando pouco... Mas, veja bem, o dia em que o PMDB tiver uma proposta política... Nós estamos trabalhando em cima de uma. Estamos formulando um programa, acho que, se a gente tiver uma boa bandeira, a gente mexe com o país.
Palmério Dória - Esse projeto prevê uma candidatura à presidência?
Prevê uma proposta de governo. Condicionar isso à candidatura é uma proposta menor. Já estou muito velho para propor uma safadeza dessa. Um partido tem que ter um programa de governo, com um programa de governo, ele compõe para implantar esse programa da melhor maneira possível ou lança candidato.
Palmério Dória - Com essa crise, o PMDB está próximo de lançar uma candidatura própria?
Se tiver programa, lança, se não tiver programa, não vale nada a candidatura própria. Veja bem, se isso continuar como está, nós vamos ter a grande mídia apoiando a continuidade do programa econômico sem Lula, sem os operários no poder.
Sérgio de Souza - Como é que vai culminar essa crise de hoje?
Eu não sei. Essa crise de hoje como vai culminar, quem é que sabe? Eu acho que, se for aprofundada, ela vai pegar o governo Fernando Henrique inteiro.
José Arbex Jr. - O senhor vê luz no fim do túnel? Possibilidades reais.
Antigamente eu via Lula no fim do túnel, agora... Eu acho muito difícil projetar isso. Porque na história política de uma nação tem elementos catalisadores, tem momentos em que o povo levanta, tivemos as Diretas. Tem coisas que catalisam o processo, aceleram reações, ou não.
José Arbex Jr. - Durante duas décadas a sociedade brasileira se organizou em torno do PT, vinculou as esperanças no PT, e o PT virou essa imundície que é hoje...
Não é uma imundície. Faça como o Hélio Fernandes, o PT e o PT governo não é o mesmo. O PT é o melhor partido que o país tem hoje. A base, a esperança. Mas o que está atrelado ao governo é a estrutura parlamentar. O que é o PT hoje? O PT é a burocracia sindical, que tem um relacionamento muito bom com bancos, aplicavam fundos... Mas a base do PT é tão boa quanto a base do PMDB. Agora, nas próximas eleições, o PT vai ser uma tragédia, né? Acabou aquele mito, aquela aura de partido da moralidade. Pega os deputados do PT lá na Assembléia, não são corruptos. Mas vão pagar o preço, vão pagar caro.
Palmério Dória - É Serra, Alckmin, Fernando Henrique, para onde o PSDB pode caminhar?
O PSDB, como um partido ajuizado, vai com quem tem a chave do cofre. Quem tem hoje é o Alckmin.
Palmério Dória - E se lhe apresentarem uma candidatura a presidência? O senhor fica docemente constrangido ou...
Em primeiro lugar minha consciência, em segundo o país e em terceiro o partido. Minha avaliação é por aí. Só falta agora eu dizer para vocês que minha fidelidade é o PT. Eu já ando desconfiado até do papa...





