Lebna Landgraf
Especial para a Folha
De Londrina
Folha A Embrapa está completando 27 anos. Quais os principais avanços tecnológicos da instituição?
Portugal Essa é uma pergunta sempre difícil, dada a gama de resultados que são obtidos nos mais de 2,5 mil projetos. Temos alguns trabalhos muito importantes, algumas culturas que em 1999, avançaram muito, como na Região Centro-Oeste, fazendo do Mato Grosso o maior produtor do País. No Nordeste, também há uma retomada do plantio de algodão. Há avanços no Sul do País, onde os trabalhos, em parceria com a Secretaria da Agricultura, e com cooperativas e associações viabilizaram a produção de frutas. Na área de pecuária bovina, a grande contribuição tem ocorrido exatamente na área de pastagem. Nós estamos enfrentando um grande desafio de mortandade de pastagem no Centro-Oeste e a Embrapa tem dado contribuição importante para resolver essa questão rapidamente. A pecuária é uma prioridade do ministro Pratini de Moraes, como é também a questão das frutas. Esse é outro destaque e eu diria que a Embrapa, em 99, fortaleceu, dentro do Programa Brasil em Ação e agora no Avança Brasil, o trabalho de pesquisa da fruticultura nas diversas regiões do País. Também mencionaria a maçã, que está sendo cultivada em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No Nordeste, a manga, a uva e o coco têm uma expressão muito grande e, no Norte, estamos trabalhando com frutas exóticas.
Folha Qual o retorno econômico e social desse trabalho?
Portugal A Embrapa sempre tem avaliado esse impacto não só nos projetos de pesquisa isoladamente, mas em avaliações um pouco mais abrangentes. Hoje temos que ter quatro preocupações: competitividade, e para isso é preciso ter qualidade e preço; sustentabilidade do ponto de vista ambiental, e – a Embrapa tem procurado fazer isso, o que contribui com um produto mais ‘‘limpo’’; equidade social, porque é preciso verificar se essa tecnologia pode ser ajustada a um sistema de produção de pequenos produtores. Essa é uma preocupação que marca a Embrapa, embora isso talvez não fique explícito. Finalmente, destacaria toda a preocupação com a questão de qualidade de vida, ou seja, você ter produtos mais ‘‘limpos’’.
Folha A Embrapa Soja, unidade da Embrapa, sediada em Londrina, é uma das instituições responsáveis pelo crescimento da área plantada com soja no País. O que se destaca no trabalho da empresa que completou ontem 25 anos?
Portugal A Embrapa Soja é um dos Centros de Pesquisa da Embrapa que participaram e foram atores importantes de um segmento que transformou profundamente a economia brasileira. Obviamente não foi apenas mérito da Embrapa, mas ela participou como agente ativo importante. A soja era cultivada apenas nas regiões temperadas e subtropicais, hoje é uma cultura universal no Brasil, o grão está sendo produzido em regiões de baixa latitude, próximas ao Equador. A soja brasileira tem níveis de produtividade similares aos dos países competidores. O Brasil ocupou a posição de destaque no mercado mundial, como segundo produtor, com toda uma cadeia produtiva extremamente diversificada. Além disso, a Embrapa Soja contribuiu muito gerando variedades novas, resistentes a doenças, desenvolvendo sistemas de manejo integrado de pragas e doenças, propondo definições claras de adubação, todo sistema de redução de perdas na colheita, juntamente com a Emater, do Paraná. E mais recentemente, o Centro continua dando uma contribuição importante, no sentido de estimular o uso alternativo da soja, como o alimento importante para a sociedade brasileira.
Folha Diante da escassez de recursos, a Embrapa buscou parcerias. Isso gerou conflito entre a missão da instituição e as exigências do mercado?
Portugal Absolutamente. A parceria pública é clássica e tradicional com universidades e institutos de pesquisa como o Iapar, no Paraná. A Embrapa jamais conseguiria cumprir bem o seu papel se ela não tivesse a parceria dessas organizações. Eu diria que o grande desafio é quando se fala no setor privado, porque, em tese, parte-se de objetivos diferentes: a Embrapa é uma empresa pública voltada exclusivamente para o desenvolvimento. A empresa privada está voltada para o lucro, para a área comercial. Quando se coloca essas aparentes contradições ou paradoxos de posição, é possível encontrar pontos comuns e desenvolver mecanismos institucionais, que preservando as características de uma empresa pública – de independência, da não-exclusividade, do interesse da sociedade brasileira – usem toda a agilidade e flexibilidade do setor privado numa parceria produtiva para toda a sociedade. Nenhum Pais poderá se desenvolver do ponto de vista tecnológico, se não tiver um forte engajamento do setor privado.
Folha Qual a interação da Embrapa com as instituições estaduais?
Portugal Essa é uma questão importante. Os sistemas estaduais compõem o que nós chamamos de um Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária e que, hoje, passam por um momento extremamente difícil, principalmente quando você olha as instituições estaduais de pesquisa, vinculadas aos governos estaduais. Nós temos que observar que o sistema estadual é composto de todas as organizações estaduais como, por exemplo o Iapar, mas também por cooperativas, universidades e empresas privadas que atuam no segmento de apoio à pesquisa. Obviamente, dando destaque, muito especial, a organizações como o Iapar, porque eles são os parceiros primeiros da Embrapa.
Folha Para justificar suas necessidades orçamentárias, a Embrapa imprimiu certa agressividade na promoção da sua imagem. Na sua opinião, é possível ‘‘vender’’ conhecimento científico como se vende um produto?
Portugal Primeiro, quando a Embrapa partiu para sua política de administração, embasada no conceito de marketing, não só como venda, mas como relacionamento entre a empresa e a sociedade, a tentativa não era simplesmente captar recursos. A Embrapa parte da premissa de que toda essa política de relacionamento com a sociedade é fundamental. Primeiro, para oferecer soluções que realmente sejam de interesse da sociedade e, segundo, que é preciso que a sociedade saiba e valorize o que a pesquisa está produzindo. Não estou falando só do produtor rural, mas do consumidor urbano, da dona-de-casa. O empregado de uma fábrica tem que, como consumidor, perceber que aquele produto, ali colocado, foi feito por uma empresa de pesquisa e que esta empresa é estratégica para ele e é importante para o País. Outro ponto fundamental, não só para a Embrapa, mas para a sociedade brasileira, é a valorização de que ciência e tecnologia é algo estratégico para o Brasil.
Folha Não há conflito econômico com essas parcerias?
Portugal Não há esse conflito quando existe legislação que permite proteger a tecnologia, do ponto de vista intelectual, seja ela um software ou um livro. Existe uma legislação para isso, mas a Embrapa não quer encarecer a tecnologia desenvolvida, mas quer que o segmento privado, que se apropria dessa tecnologia e obviamente terá lucro, retorne esse lucro, na forma de royalties, para que seja reinvestido em pesquisa. Essa é lógica do processo. E os pequenos produtores, como fazer? Eles vão comprar essa tecnologia? Os pequenos produtores, engajados no mercado, através de sua cooperativa, por exemplo, podem, de maneira mais barata, viabilizar o acesso à tecnologia. Quando se fala em minorias que estão fora do processo de desenvolvimento, como os assentados do Incra, os pequenos produtores, as tribos indígenas, às vezes não são minorias, são até maiorias, nesses casos, nós temos que buscar parcerias junto ao Bando de Desenvolvimento do Nordeste, Banco do Brasil, Incra e secretarias de agricultura para que disponibilizem recursos que viabilizem a transferência dessa tecnologia aos produtores. Muitas vezes é a própria Embrapa que faz isso, junto com o Ministério da Agricultura: viabilizando o acesso de comunidades pobres para obterem uma semente de boa qualidade, como é feito com o milho, por exemplo.
Folha Nos últimos anos, o modelo tecnológico vem se alterando. Como a Embrapa encara essa mudança?
Portugal Acho que a pesquisa brasileira sempre se preocupou em aumentar a produtividade; racionalizar o uso de insumos. Obviamente que quando a sociedade expressa demanda por sustentabilidade, melhoria de qualidade, ela torna essa demanda mais clara e aumenta a pressão em cima do pesquisador para que ele caminhe nessa direção. É assim que se faz quando a sociedade vai mudando suas necessidades. Se você pega a área de melhoramento genético, por exemplo, qual o grande esforço com a pesquisa de soja? Além de ter uma planta com altura adequada para colheita, que não tombe e apresente características de precocidade, existe um esforço para fazer uma soja resistente a pragas e doenças e que contribua para a sustentabilidade da cultura. É um trabalho para racionalizar o uso de recursos.
Folha Existe dificuldade em o produtor utilizar as tecnologias disponíveis?
Portugal Quando se enriquece o estoque de tecnologias, o produtor mais qualificado tem facilidade para montar seu sistema de produção. Já no caso dos produtores menos qualificados, a tecnologia isoladamente não resolve o problema, se não forem resolvidas questões de caráter estrutural, institucional, como acesso à informação, crédito e estruturas de transporte. O desenvolvimento se faz por essa cinergia: mudança tecnológica, mudança estrutural. Por isso, quando você agrega essas duas questões, você avança. São inúmeros os exemplos de produtores que, quando têm esses gargalos resolvidos, passam a usar as tecnologias disponíveis com tranquilidade.
Folha O que a Embrapa tem feito para incentivar a agricultura familiar?
Portugal Toda a pesquisa desenvolvida pela Embrapa tem potencial aplicação para agricultura familiar. O pacote de tecnologias da soja, por exemplo, aplica-se tanto a um produtor de mil hectares quanto a um que possui 50 hectares. O que a Embrapa procura fazer? O que temos que fazer junto com a extensão rural e as cooperativas é ajustar o sistema de produção do pequeno produtor, já que ele tem dificuldade de recursos, e até de educação formal para organizar seu sistema de produção. A Embrapa está preocupada com o pequeno agricultor e existe um acervo tecnológico imenso que é viável a ele. Eu diria mais, os resultados nos assentamentos e cooperativas, demonstram que superando os gargalos, as tecnologias são adequadas aos pequenos.
Folha A biotecnologia é um divisor. Como o Brasil avança nessa questão?
Portugal O Brasil investe aquém dos países desenvolvidos, mas há firme determinação do governo de investir nessa área para não permitir que o Brasil fique atrasado, em termos da pesquisa em biotecnologia e engenharia genética. Há programas governamentais como o Avança Brasil, colocando a biotecnologia como área prioritária e até alocando recursos para isso.
Folha Qual o grande desafio brasileiro hoje?
Portugal Não podemos perder essa corrida, por isso é importante preparar pessoas que tenham facilidade de acesso ao exterior para acompanhar as técnicas mais avançadas. É preciso fazer parcerias com multinacionais e universidades estrangeiras para trazer o que é de interesse do Brasil e ao mesmo tempo criar uma massa crítica para desenvolver nossas próprias tecnologias. A Embrapa está trabalhando com várias instituições para identificar genes do café, feijão e plantas medicinais, que possam ser de interesse para o Brasil. No caso das grandes commodities, soja, milho, algodão, o avanço já é grande atualmente, por isso não se justifica muito entrar nessa corrida, mas sim fazer parcerias com quem já tem esse conhecimento.
Folha Os ensaios de campo poderão ser substituídos por modelos matemáticos simulados?
Portugal Há uma tendência em deixar o campo experimental e partir mais para o laboratório, na medida em que se tem avanços, metodologias significativas, seja na questão de processamento de dados, onde existem modelos de simulação, seja nos laboratórios, onde têm equipamentos mais sofisticados. É preciso que o pesquisador use bem esse acesso metodológico. Hoje o acesso à informação é mais rápido, antigamente para se fazer uma pesquisa bibliográfica, você dependia de um ‘‘paper’’ na sua mão. Atualmente você consegue tudo via Internet. O pesquisador precisa usar isso para refinar suas hipóteses para que, quando colocar um experimento no campo, vá com maior chance de acerto. É claro que o experimento clássico nunca será substituído, mas ele pode ser refinado. Já que o pesquisador vai testar seu experimento com maiores chances de acerto, o custo diminui e o processo é mais rápido.
Folha Na polêmica sobre transgênicos, cite, pelo menos, três pontos que acha positivo e três pontos que acha negativos.
Portugal A primeira questão positiva é que dificilmente a humanidade vai prescindir dessa tecnologia e, portanto, o Brasil está entrando nessa corrida. Em segundo lugar, diria que essa tecnologia terá a capacidade de desenhar, no futuro, o produto que o consumidor quer, ou seja, ajustar características como, mais proteína, maior teor de óleo, sabor mais azedo ou doce e, assim por diante. Como terceiro, destaco a geração de produtos com redução de contaminação ambiental, na medida em que teremos plantas com maior capacidade de extrair nutrientes do solo. Com relação as desvantagens, que eu chamaria de desafios, o primeiro deles é ter uma discussão equilibrada e tranquila na sociedade a respeito do uso dessa tecnologia.
Folha A Embrapa tem um grande banco de germoplasma e fala-se que a instituição tem um grande conhecimento acumulado sobre transgênicos. Como ocorrerá a transferência dessa tecnologia?
Portugal A Embrapa Soja tem seu banco de germoplasma de soja para fazer o melhoramento genético e existe uma legislação que rege essa questão de germoplasma. O germoplasma trabalhado, caracterizado como cultivar, tem proteção da lei. A Embrapa tem trabalhado com muito cuidado e essa é a vantagem, já que lidera o trabalho genético no mundo tropical e subtropical, principalmente, na área de grãos e forrageiros.Presidente da empresa que completa 27 anos de fundação diz que prioriza também transferência de tecnologias e royalties
Josoé de CarvalhoEM SUMAPortugal: trabalho da Embrapa pode ser explicado pela preocupação com a questão da qualidade de vida das pessoas, através de produtos mais ‘‘limpos’’

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