Nedson faz balanço de olho na reeleição
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domingo, 21 de dezembro de 2003
Cristiane Oya eBeth Debertolis<br> Reportagem Local 
Ao final de três anos de mandato, o prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT), diz estar ''bastante satisfeito'' com as suas realizações à frente do município. Eleito em um dos períodos mais conturbados da política local ele mesmo admite que não esperava a vitória nas urnas Nedson se aproxima de seu último ano de governo de olho na reeleição. Para conquistar novamente o eleitorado, a aposta recai no trabalho que deverá ser desenvolvido este ano. Uma das amostras da preocupação com obras, é o livro que estava sobre a mesa do prefeito em seu gabinete no dia desta entrevista: um catálogo com mais de 700 pistas de skate construídas pelo país. ''Estou dando uma olhada porque quero construir uma em Londrina'', anunciou Nedson.
Folha - Qual a avaliação política que o senhor faz do seu mandato até agora?
Nedson - Logo que eu comecei o governo eu tracei uma estratégia para meu mandato. No primeiro ano trabalharia o ajuste da máquina administrativa; no segundo ano, manutenção da cidade; terceiro ano, obras e a questão das políticas públicas; e no quarto ano iria trabalhar questões mais estratégicas que demandariam investimento mais pesado. Que mudaria a relação da administração pública com a sociedade, uma administração participativa e em todos estes pontos eu considero que realizamos. Estou fechando 2003 com um bom rol de obras feitas com dinheiro do município. Para quem saiu de um déficit de R$ 39 milhões que eu peguei em janeiro de 2001, endividamento de meio milhão de reais, fechamos agora com investimentos e cumprindo os programas sociais, o ajuste da máquina e fazendo obras na área da saúde, educação, assistência social e já conseguindo traçar as estratégias como o caso da duplicação da Saul Elkind, da rota gastronômica, instalação de empresas, a avenida Ayrton Senna, lago Norte, Parque Tibagi. Estamos cumprindo o que planejamos e, além disso, resolvemos um impasse político que não estava nos planos, que era colocar Londrina de novo no cenário político e não no cenário policial como era. Hoje Londrina tem peso na discussão do Estado, não está isolada, não está a parte como era no governo anterior. Hoje Londrina tem presença no governo do Estado e no governo federal mais ainda, coisa que nunca aconteceu na história da cidade.
Folha - A avaliação que a gente faz é que Londrina apostou bastante na sua administração. Esperou você dar conta do caixa, começar as obras e se aproximando o final do mandato, surgem as críticas. A primeira que veio é esta via CEI da Cultura...
Nedson - Acho que não foi a primeira. Estou enfrentando situações com a Câmara desde o começo do governo. A diferença não é ter uma CEI. O meu primeiro embate com a Câmara foi a questão do lixo, no segundo mês de governo. Durou quase o primeiro ano todo. O embate foi muito mais pesado. A CEI é a Câmara cumprindo o papel dela, que é fazer a fiscalização dos atos do Executivo, seja através de uma CEI, de um pedido de informações, reuniões, nas comissões temáticas, isto é natural, não vejo problema nenhum. Eu acho que os maiores embates políticos meus com a Câmara foram a questão do lixo e depois a questão da Sercomtel Celular. Na cidade de Londrina, a política é bastante emergente, é o espírito do londrinense, que é crítico. Por isso que eu sou prefeito, porque Londrina tem esta efervecência da política.
Folha - Londrina passou por um período complicado de denúncias contra a administração, ações na Justiça. O londrinense ficou um pouco traumatizado com este tipo de denúncia. Além da CEI da Cultura, o Ministério Público investiga e até ajuizou uma ação denunciando irregularidades na Fundação do Esporte durante a sua gestão. Como você avalia este processo, o desgaste?
Nedson - Temos uma postura na administração de agir com rapidez, eficiência, apurar qualquer tipo de questão, responsabilizar quem tiver que ser responsabilizado. Não vai achar uma única questão do nosso governo que nós não tenhamos apurado e tomado as devidas medidas de responsabilização de quem quer que seja. Nunca fizemos nenhum tipo de proteção porque este é mais amigo, aquele é menos amigo. Sempre agimos com absoluto rigor e isto é uma marca no nosso governo, a questão da ética e da transparência na administração é princípio. A administração é responsável quando não apura, ou então quando procura esconder, mas nunca fizemos isso.
Folha - A CEI da Cultura identificou algumas irregularidades e o relatório foi encaminhado ao Ministério Público. O presidente da CEI, Rubens Canizares, disse esperar que o ''Executivo não deixe isto terminar em pizza''. O senhor já teve acesso ao relatório?
Nedson - Nós apuramos todas as questões antes. Algumas já tínhamos apurado e já tínhamos tomado as providências. É importante, a Câmara apurou, mandou para o Ministério Público, excelente, já tínhamos tomado as medidas. A nossa atuação foi imediata. Assim que abriram a CEI, abri aqui também a sindicância nos mesmos processos e vários deles já estavam com apuração feita, inclusive requerendo devolução de dinheiro em alguns deles. Quem faz uma CEI acabar em pizza ou não, não é o Executivo. Não é o Executivo que faz uma CEI.
Folha - O senhor gostou de ser prefeito?
Nedson - Adoro ser prefeito.
Folha - Vai continuar prefeito então?
Nedson - O meu gosto é este.
Folha - Você esperava ser eleito?
Nedson - No começo da campanha, não. Só no final dela. Até eu começar a campanha, não achava que estava com grande chance de ganhar.
Folha - O senhor sai candidato em 2004?
Nedson - Saio candidato a reeleição.
Folha - E hoje você espera uma reeleição?
Nedson - Hoje, mais do que ser candidato, eu tenho uma responsabilidade de governo. A minha candidatura vai ter dois sentidos, continuidade do projeto político mas também tem o sentido de defesa do trabalho que nós fizemos e estamos fazendo e que considero que está sendo um trabalho muito sério e que estamos avançando muito na cidade de Londrina, seja na máquina administrativa, nas políticas sociais, na forma que trabalhamos nas relações com a cidade, e apontando um rumo para a cidade na questão do desenvolvimento da cidade.
Folha - Já tem definido como vai ser o Nedson candidato a reeleição?
Nedson - Não. A eleição, o formato da campanha, lá na frente, que vai ser em julho do ano que vem, quem vai definir é o partido e a aliança que se formar ao redor e eu vou trabalhando normalmente, fazendo a minha gestão. E não estava nem no meu plano colocar esta questão agora. A minha idéia era colocar a minha intenção a partir de março e o debate sucessório está colocado, mas houve muita antecipação também dos outros atores da política. Vários candidatos se colocando, especialmente um, que já foi prefeito, e achei por bem, até para defender um campo político na cidade, antecipar esta colocação. O normal sempre é passou o Carnaval começa o ano político, começa a campanha, mas me antecipei.
Folha - Na campanha passada você era uma alternativa, o novo, o diferente. E nesta campanha, como você vai fazer? Você vai ''bater'' no Belinati?
Nedson - Eu acho que nem é isso. O que vai estar no crivo no ano que vem é o meu governo e acho também, que é natural que aconteça, o crivo do governo federal por ser também do PT. Acho que menos do governo estadual, até porque provavelmente o partido do governador tenha candidato aqui, mas acho que vai ser o crivo do governo.
Folha - Nesta campanha devem surgir críticas dos outros candidatos com relação a sua administração. Como você pretende lidar com isto?
Nedson - Eu acho que é muito cedo para fazer esta avaliação. Estamos ainda a seis meses da campanha, mas quem vai avaliar é o povo de Londrina, se a crítica tem fundamento e se tem credibilidade. E isto já acontece, a crítica a uma administração, independente do processo eleitoral, já acontece. No dia-a-dia nos confrontamos com o governo sendo avaliado, criticado, questionado, elogiado, dependendo da área. Em uma campanha, este perfil muda, passa a ser um embate entre as candidaturas, mas isso só acontece de julho para frente.
Folha - Dois mil e quatro é fundamental para a sua reeleição?
Nedson - Como foi fundamental o primeiro ano. Se eu não tivesse feito o ajsute da máquina no primeiro ano, não teria conseguido manter a cidade no segundo ano. Se eu não tivesse feito a manutenção da cidade e resolvido financeiramente em um custo equilibrado, não teria condições de caixa este ano para as obras que estamos fazendo. É um governo que tem estratégia. Começamos sabendo o que queríamos e onde queríamos chegar e estamos cumprindo cada etapa. Não é tão simples as pessoas todas verem, isto é um desafio. Como as pessoas de forma geral vão compreender que eu trabalhei assim e onde eu queria chegar? Eu tenho falado sempre, mas esta é uma questão, a compreensão da cidade. O teste se compreendeu ou não, ou se não gostou, vai ser na eleição.
Folha - No que você aposta para conquistar o eleitorado? Arrumar a casa é complicado, mas não aparece para o eleitorado. O que você pretende fazer em 2004 para garantir a reeleição?
Nedson - Na posse, uma pessoa chegou e disse: ''Se você fizer uma administração honesta, não roubar e não deixar roubar e arrumar as finanças da prefeitura, você já cumpriu sua missão de prefeito em Londrina''. No final do primeiro ano, as pessoas falavam: ''Prefeito, olha o bueiro entupido, o mato na praça, isso, aquilo''. Quer dizer, o ajuste financeiro estava se finalizando e as pessoas falavam que era mais do que obrigação arrumar a casa. Ele tem agora é que manter a cidade. Aí chegou no final de 2002, as pessoas falavam: ''Mas não estou vendo nada. A cidade está mais limpa, resolveu o problema do camelô, mas e obras?''. E aí os postos de saúde, escolas, asfalto em bairros. Estamos agora inaugurando e colhendo o fruto desta fase. E aí as pessoas começaram a falar: ''E emprego, e desenvolvimento, para onde vai a cidade?''. Agora as pessoas querem alguma coisa que marque a cidade.
Folha - Vão coincidir inaugurações em ano político. Como você vai trabalhar para não caracterizar o uso da máquina?
Nedson - O que você achou do Lago Igapó 2. Não fizemos inauguração. Alguém em Londrina acha que não foi obra da nossa administração? Todo mundo sabe e eu não fiz inauguração nenhuma. Não precisa.
Folha - Sem fazer foguetório e esta coisa toda?
Nedson - Sem foguetório e muito menos ''esta coisa toda'', isto não fazemos mesmo. Antigamente tinha foguetório e ''esta coisa toda'', que era o problema. O que quebrou a cidade foi ''esta coisa toda'', não foi o foguetório. Então, nada disso. Já não estou fazendo e não tem lei nenhuma que proíba hoje, por que vou querer fazer no ano de eleição.
Folha - Você já está trabalhando este tipo de coisa?
Nedson - Não. O que eu aposto é neste trabalho que está sendo feito, cada etapa que estamos fazendo. Interessante, quando começamos o projeto Rede da Cidadania, era difícil das pessoas entenderem o que era. Domingo passado, foi feita a festa aqui no Zerão com as crianças, jovens, adolescentes envolvidos neste projeto, você fica maravilhado de ver como está. Tivemos também a apresentação das crianças do projeto Viva a Vida. Aquelas crianças fazendo apresentações artísticas, vivendo com uma alegria danada, sendo gente valorizada. Os projetos sociais, de saúde, obras nas escolas. No centro da cidade, poucas pessoas lembram como era a rua Rio de Janeiro, do Calçadão até o Terminal, e a rua João Cândido até o Terminal, você não andava na calçada. Pano estendido na rua na frente da loja do comerciante. Vai naquele centro hoje. Quem acreditava que iríamos achar um bom caminho para a questão dos artesãos. O último ponto que conseguimos terminar a visibilidade, é a questão da definição da questão econômica. As pessoas acham que política de desenvolvimento econômico é trazer uma grande empresa. Se tivesse esta grande empresa seria excelente, estamos trabalhando para vir. Temos duas pelo menos, a principal delas é a Profasa, mas temos uma diretriz que traçamos que é apoiar as empresas de Londrina, que queiram crescer, ampliar. Agora, vamos ver se dá certo uma empresa de call center que vai gerar quase 400 empregos, a K2 Solutions, que é uma empresa de softwares que vem para Londrina. É só emprego de ponta. Temos em Londrina, aqui da nossa Gibiteca, que fazem quadrinhos e mandam para a Disney. Moram em Londrina por causa da qualidade de vida.
Folha - O seu estilo não é populista. O seu adversário principal é. Você está sabendo aproveitar a linha que você conduz, colhendo isto na política?
Nedson - Este é o meu maior desafio. Fizemos uma plenária do partido há algum tempo, onde este foi o principal assunto. As pessoas disseram: ''Você tem que dar um jeito de mostrar''. Londrina passou por dois tipos de administrações. Dois grupos políticos na cidade que se revezavam no poder com uma cara definida, mesmo que o candidato ou governante não a expressasse na sua totalidade. Ou era uma elite, que tinha como expressão máxima o Wilson Moreira, que havia um distanciamento total, ou então o populismo daquele mais clientelista, fisiológico mesmo, com a expressão maior no Antonio Belinati. Então Londrina ficou muito nestes pólos. Eu não sou nem uma coisa nem outra. O meu trabalho é sério e fazendo um governo democrático, participativo, chamando as pessoas, não para uma dependência. Londrina nunca teve uma atenção, por exemplo, na distribuição de alimentos, cestas básicas, cartão alimentação como estamos fazendo. Eu por exemplo, não conheço uma família e ninguém está lá fazendo política nisto. Quando você dá um cartão para a pessoa para ela comprar o que quer, você quebra a relação de dependência da pessoa. Acho que os governantes têm que se relacionar desta forma com a sociedade, fazendo um trabalho sério, tendo projeto, sabendo onde está indo, tendo responsabilidade, mas tratando as pessoas numa relação de cidadania, de participação, de respeito, chamando as pessoas para incluí-las no debate da cidade, das políticas públicas. Eu confio nesta forma de fazer política. Espero que isto também, eleitoralmente, dê resultado.


