Não tem volta
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Não tem volta
Desde o mensalão, e depois mais tarde com a Lava Jato, instaurou-se no país um ciclo punitivo e há necessidade de recuperar o equilíbrio de certa forma perdido pela circunstância da prática da impunidade como método e que produzia natural reação. A classe política se declarou, em maioria, criminalizada e reagiu transformando um projeto legislativo que visava dar mais força a promotores e policiais num de combate a abuso de autoridade. Nessa linha, ainda que meio claudicante, pintou no Senado a proposta, que acabou afinal sem o número mínimo de assinaturas, da CPI do "Lava Toga", que pretendia coibir a politização no Judiciário e o reverso da judicialização da política.
A massa de informações sobre o nível de corrupção do Estado brasileiro nas relações com clientelas empresariais habituou a população à ânsia de saber tudo e entender por que a nata de empreiteiros acabou na cadeia, onde estão figuras políticas como o ex-presidente Lula, ex-governadores como Sergio Cabral e Pezão, do Rio de Janeiro, o ex-chefão da Câmara Federal, Eduardo Cunha.
Se houve bom senso do próprio Senado no recuo da "Lava Toga", isso não significa que o Poder Judiciário não possa ser alvo de investigação, até porque pintaram acusações de percepção de propinas por seus integrantes. O ideal - e para tanto se criou a estrutura do Conselho Nacional de Justiça - é que os próprios poderes façam tais apurações, o que não elide a legitimidade das investigações. Ocorre que na onda punitiva tivemos o abuso de vazamentos, uma deformidade que precisava ser evitada na garantia do rigor jurídico, como se deu agora em relação ao ministro Gilmar Mendes e esposa em procedimentos da Receita Federal.
Não há perspectiva de retorno, porém, à acomodação anterior e estão aí para prová-lo o caso da movimentação atípica no Coaf do assessor de Flavio Bolsonaro e agora do episódio das laranjas que chega em dois ministros, Marcelo Alves Antônio e Gustavo Bebiano.
No Paraná, seria inconcebível a prisão do ex-governador e da primeira dama e isso aconteceu. O processo pode ganhar tonalidade mais equilibrada, sem exageros, mas não tem volta.
Volta, xerox!
Curitiba viveu a explosão das cópias em xerox de documentos oficiais justamente no regime militar: era comum a circulação de decisões do Tribunal de Contas, aditivos contratuais. Lembro de um que pretendia atingir gente relacionada com Ney Braga relativos à gestão prefeitural em episódios como a construção da rodoviária. Nem tudo era irregular, anômalo, mas a forma como circulava dava esse tom de suspeita.
Pois agora o deputado Plauto Miró Guimarães, depois de oito anos no posto de secretário do Legislativo, parece estar disposto a abrir seu arquivo ao relatar publicamente que tem farta documentação dessa convivência e que conservou-as até por precaução.
Uma das coisas surpreendentes no histórico legislativo é o fato que a despeito da questão dos "diários secretos" ter atingido especialmente o diretor administrativo, o Bibinho, não alcançou nenhum membro da Comissão Executiva, como se o gerenciamento fosse autônomo e pudesse fazer livremente o "nomeia e demite" de servidores fantasmas.
Imóveis
Curitiba está revelando recuperação no mercado imobiliário, com empreendimentos de média e longa duração em bairros como Cabral e Bacacheri. Em Londrina deu para perceber alta de 12% nas locações e de quase 6% em vendas. Significa, antes de tudo, adensamento no mercado de trabalho e sinalização discreta de recuperação. Dizem os otimistas que com a reforma previdenciária o ministro Guedes vira mito e a coisa "bomba". Vamos torcer.
Ruptura e calma
A ZR3 produziu um estrago em Londrina com a interdição de dois vereadores e o impacto das supostas manipulações no zoneamento da cidade e, consequentemente, seu Plano Diretor. Depois do trauma, a normatização: alterações eventuais só podem ser feitas com assinatura de pelo menos sete camaristas, de quatro projetos até aqui apresentados apenas dois aprovados.
Só um caiu
Até hoje só um governador do Paraná caiu. Foi Haroldo Leon Perez, apanhado pelos órgãos de inteligência tentando levar vantagem pessoal na construção da ferrovia Central do Paraná entre Ponta Grossa-Apucarana. Nada se deu com sua esposa. Beto Richa e Fernanda, novamente processados, foram presos e agora a ex-primeira dama é denunciada por lavagem de dinheiro na compra de imóveis com grana do pedágio.
Folclore
O ex-governador Leon Peres, ao cair, só um jornal, antes das revistas semanais, deu a notícia e me lembro do delegado da Polícia Federal, Kalil, à porta do Edifício Arthur Hauer, na praça Osório, apreendendo o reparte que vinha à redação. Era o furo que a sucursal estava proibida de ver. Coincidência: o governador, com empresa de armazenamento de café, ocupava o último andar e a meio caminho estava o escritório de arquitetura do prefeito Jaime Lerner, naquela altura prefeito da capital. A Folha era vizinha dos dois no segundo andar, acima da Confeitaria Iguaçu.


