''Eu não sou sindicalista. Eu não tenho histórico de sindicalismo nenhum. A coisa que mais me incomoda hoje é quando me chamam de sindicalista.'' A afirmação é do presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Londrina (Sindserv), Marcelo Urbaneja, que comandou cerca de sete mil trabalhadores na mais longa greve da categoria já vivida na história da cidade.
Foram ao todo 31 dias de paralisação em reivindicação à reposição salarial de 21%. Os servidores voltaram ao trabalho na última terça-feira, após um acordo assinado pelo prefeito Nedson Micheleti (PT) e Urbaneja, que prevê a negociação dos repasses salariais conforme o incremento da arrecadação e a negociação imediata dos dias parados.
Entre idas e vindas, Urbaneja está no funcionalismo municipal desde 1986, quando ingressou através de concurso para os quadros da Secretaria de Educação. Por dois anos, ele foi professor da escola rural do Vale do Cambezinho. Em 1992, foi o primeiro presidente eleito do Conselho Tutelar de Londrina. Dois anos depois, se reelegeu para o cargo. Em 1996, disputou as eleições para vereador pelo PT. Fez cerca de 1,1 mil votos e ficou como suplente. No ano seguinte voltou para as salas de aula conciliando a função de professor com a de presidente do diretório municipal do PT.
Segundo Urbaneja, o que o levou a disputar a presidência do Sindserv no ano passado foi a ''injustiça''. ''Eu estava lá na minha sala de aula, sossegado, e vi o PCCS que deu tanto para poucos. Então fiquei sabendo que existia um movimento de oposição, me convidaram e eu participei da reunião. Chegando lá, começamos a organizar, a discutir, amadurecer e foi onde me convidaram para me candidatar a presidente'', relatou. A chapa de Urbaneja derrotou a então candidata a reeleição, Marlene Valadão Godoi.
O histórico de Urbaneja confirma que nem sempre ele esteve ligado aos movimentos do sindicato. Em 1993, durante a segunda maior paralisação da categoria, que durou 18 dias na gestão do então petista Luiz Eduardo Cheida (hoje PMDB), ele não aderiu à greve. ''Não participei porque estava fora do meu mundo. Eu só tinha o vínculo financeiro com a administração e era como se não participasse da administração. Sabia que eu recebia da prefeitura, mas não tinha ligação, não acompanhei'', disse Urbaneja. ''Por isso que tive muita dificuldade para falar sobre a greve agora. Eu não tive essa vivência'', avaliou.
Apesar da troca de farpas entre a administração municipal e a direção do sindicato durante todo o movimento grevista, Urbaneja não considera que a entidade seja oposição ao prefeito. ''Considero que o sindicato hoje é a favor do servidor. Falo isso com a maior tranquilidade porque se fosse assim antes, não teriam deixado essa herança para nós. Essa administração anterior que tabelava com o sindicato promoveu um arrocho salarial que hoje chega a 21% e destruíram o PCCS (Plano de Cargos, Carreiras e Salários) que vinha sendo construído pela categoria'', justificou.
Urbaneja afirmou ainda que não tem intenção de entrar para a política. ''Já fui candidato, vi como se joga, não gosto do tipo de jogo que acontece. Sou uma pessoa que tem posições, não sei ficar em cima do muro. Para um político, isso não dá certo. Quando saí candidato no sindicato, o primeiro material de campanha meu tinha um compromisso público de não sair candidato a vereador nas próximas eleições porque tínhamos um compromisso de que o sindicato não poderia ser um trampolim político.''
De acordo com Urbaneja, o sindicato sai dos 31 dias de paralisação com dívidas. ''Não conseguimos pagar tudo da greve. Não fizemos levantamento ainda, mas tudo ali, desde o copo descartável, até a banana, que acharam um absurdo, foram pagos pelo sindicato. Tivemos a preocupação do bem estar do servidor. Arrumamos banheiro ecológico, locamos mil cadeiras e por isso conseguíamos contar quantos servidores tinham lá, o caminhão de som, estrutura de água, lanche e as frutas. A gente sai da paralisação com dívidas. Não conseguimos pagar tudo à vista, parcelamos. Mas é bom que se deixe claro que tudo isso foi o servidor sindicalizado que patrocinou. Não recebemos uma agulha de ninguém e também não temos objetivo político partidário'', assegurou.
O estado de greve continua. Sindicato e administração voltam a se reunir terça-feira para debater os 28 itens da pauta de reivindicações. O resultado dessa negociação será colocado em assembléia no dia 14. ''Estamos arrumando um lugar grande para pelo menos 1,5 mil pessoas'', disse, sem descartar a hipótese de retorno à paralisação.

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