Não sou deslumbrado pelo poder
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domingo, 07 de dezembro de 2008
Bia Moraes<br>Colunista da FOLHA 
Beto Richa, prefeito de Curitiba, é o administrador municipal mais popular do País. Dono de excelente votação, o rapaz que obteve arrasadores 78% dos votos válidos tem pela frente mais quatro anos de mandato - mas convive com a possibilidade de abandonar a prefeitura e sair candidato ao governo em 2010. Bem apessoado, bem votado, uma estrela em ascensão no partido. Esse é o cara que o Brasil conhece.
Mas ele é também o Beto. Um londrinense que ainda arrasta os ''erres'' e parece fazer questão de manter o sotaque de gente que veio do Interior. O filho do José Richa e da Arlete já tem 43 anos, é casado e pai de três filhos, mas guarda um ar moleque de quem não esqueceu as artes de chutar bola, correr, ficar perto da família, jogar conversa fora com os amigos de sempre.
Sem disfarces
''Não sou deslumbrado pelo poder'', diz logo o rapaz bronzeado que recebe a reportagem da FOLHA em seu gabinete de prefeito, para a primeira entrevista exclusiva depois da eleição. Vaidoso, Beto gosta de falar de si mesmo. Aprecia mostrar o lado menino-moleque-família. Fala - até demais - da infância e de seus feitos como atleta e piloto de corridas. Basta, porém, o assunto chegar na política, para o rosto de garoto ganhar um ar retraído. Os músculos se tensionam sob a camisa branca e engomada.
Quando Beto Richa diz que não se sente tomado pela vaidade do poder, até dá para acreditar. Ele confessa que se, por acaso, ''tivesse que largar tudo hoje, deixar a vida pública'', deixaria, sem peso nem arrependimento. Como assim? Ia fazer o que então? ''Tocar a minha vida. Ficar com a minha família, meus amigos''. Simples assim, Beto?
Não por acaso, em outra fase da entrevista, ele diz que escolheria Londrina para morar, se pudesse escolher um único lugar entre todas as cidades do mundo. Logo Londrina, onde nasceu, passou infância e comecinho da adolescência? ''É uma cidade menor, mais tranquila, boa para criar os filhos. Eu teria mais tempo para os amigos. Aqui, não dá pra encontrar os amigos todo dia.
'Sonho, sim, em ser governador'
Parece contraditório quando, mais adiante, ele afirma ter, sim, vontade de ser governador. ''Não vou negar que tenho esse sonho. É claro que eu adoraria trabalhar pelo Paraná, fazer o que tenho feito como prefeito por Curitiba, em escala maior. É um grande desafio. Ué, Beto, parecia que você não era deslumbrado pelo poder. Quer, então, ter mais poder ainda?
''É como eu disse. Vou ser governador se as circunstâncias permitirem. Tenho um partido, uma vida política, um grupo trabalhando comigo. Não depende só do Beto decidir se vai ser candidato a governador agora em 2010 ou não. Então é assim: se eu tiver que ir, vou. E se não tiver que ir, não vou. Tranquilamente.
Quando Beto Richa fala no grupo político ao qual pertence, é a voz do prefeito. Mas, no fundo, é mesmo o menino de Londrina quem dita as regras da pessoa pública: valorizar a união da turma antes de tudo é o lema.
Ponte para 2010
Ele também tem plena consciência de que as especulações - diárias, na imprensa ou nos bastidores da política - em torno das composições para 2010 são exatamente isso: especulações. Muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte. Pela experiência, sei que o cenário eleitoral se define mesmo na véspera, ou seja, daqui a um ano e meio... até lá, tenho muito que fazer. Tenho um compromisso com a cidade, com meus eleitores.
Beto afirma que tem ''muita gente tentando convencê-lo a sair para o governo. Volta a exibir tranquilidade: ''Sabe como eu chamo isso? A ansiedade da classe política. Todo mundo é muito aflito! Eu não''.
Fernanda, fica. Fora de eleições
Com a mesma convicção, Beto responde, rápido, com um ''não'' bem firme quando questionado sobre possíveis ambições político-eleitorais da esposa Fernanda Richa. Bonita, simpática, bem relacionada, com um trabalho social consolidado, ela poderia obter grande votação. Teve até um movimento recente batizado de ''Fica Fernanda'', com direito a adesivos e notas plantadas na imprensa, para fazer com que a primeira-dama da cidade continuasse comandando a Fundação de Ação Social, apesar do aparente nepotismo.
Nesse ponto, o casal parece falar a mesma língua. Beto Richa diz que Fernanda nunca vai sair candidata a nada. ''Temos isso bem resolvido entre a gente. Ela é excelente no que faz: trabalho social. É nisso que ela gosta de atuar e é o que vai continuar fazendo, como sempre fez, com muita competência, aliás'', diz o marido orgulhoso. O prefeito afirma que o casal está ''acostumado'' a ter gente em volta incensando a dupla, alimentando a fogueira das vaidades, sugerindo que corram atrás de mais e mais poder e visibilidade. Se dependesse dessa turma, observa, um logo sairia governador, e a outra, prefeita. Beto emenda: ''Ela também não foi picada pela mosca azul do poder, viu?''.
Nada de rótulos
Beto não cita nomes, mas sabemos que o tal grupo político a que ele se refere várias vezes inclui Gustavo Fruet, Valdir Rossoni, Osmar Dias, entre outros. E por falar nisso, o que o prefeito acha do cenário do Paraná pós-eleições? Será que estamos assistindo ao fim de um ciclo em que dois grupos se alternaram no poder - um liderado pelo governador Roberto Requião, outro identificado com o ex-governador Jaime Lerner?
Nessa hora, o prefeito fala grosso. Com uma grande dose de indignação, diz: ''Não sei porquê essa mania de me identificarem com o Lerner. Falarem que sou do grupo do Lerner. Como? Isso não existe! Já apoiei até o Requião. E tantos outros nomes opositores ao Lerner, como o Álvaro, por exemplo. Olha, se é pra rotular, então digam que sou do grupo do José Richa!''.
É visível a identificação com o pai. O menino, o prefeito, o político - seja qual face Beto Richa esteja mostrando, José Richa é sempre o herói, a referência máxima. Não há mesmo como contestar a grande figura que o ex-governador do Paraná foi para o Brasil: peemedebista, lutou contra o governo militar, ajudou a refundar a democracia no País pós-ditadura, foi pró-parlamentarismo e um dos fundadores do PSDB. Acima de tudo, José Richa era homem de bem. O boa-praça, o ''turco'' em quem os amigos podiam confiar. E também o pai de família que prezava o convívio com a esposa e os filhos, que amava jogar conversa fora com a roda de amigos.
Isso tudo não lembra alguém? Beto nem se preocupa em negar a influência do pai. A expressão ''meu pai'' aparece várias vezes ao longo da conversa. Mas Beto não quer viver na sombra do José. Não há peso na herança pessoal, nem na política. Ao contrário: o moço de Londrina busca brilho próprio. Quem sabe onde ele vai chegar? Pode ser o Palácio Iguaçu, daqui a pouco tempo. Também pode ser um quintal sombreado do Norte paranaense, papeando com a turma, planejando a próxima corrida.


