FOLHA - Às vésperas da comemoração do centenário de seu nascimento, dia 22 de janeiro, quais os fatos que mais o impressionaram no século que o Sr. viveu?
BARBOSA LIMA - O século teve momentos de grandes apreensões, mas as guerras européias me impressionaram profundamente. Meu maior receio, nas duas grandes guerras, era a possibilidade de vitória da Alemanha em 1914/18 e em 1939/45. Achava que, se isso acontecesses, poderíamos perder o Sul do Brasil (região mais densamente habitada por alemães à época). De modo que, com essa convicção, me tornei partidário fervoroso dos aliados contra a Alemanha, nos dois conflitos mundiais, e só respirei realmente com alívio após as batalhas finais, sobretudo na II Grande Guerra. A ameaça de Hitler era pior do que o domínio da antiga Alemanha imperial. E foi exatamente nessa perspectiva que recebi a notícia do fim do hitlerismo e do III Reich.
FOLHA - E a revolução russa de 1917?
BARBOSA LIMA - Também me impressionei muito com esse acontecimento, embora, na ocasião, estivesse mais inclinado para a corrente dos sociais-democratas alemães. Até hoje, tenho os livros de quase todos os ideólogos e pensadores do socialismo alemão, pelos quais tinha enorme admiração.
FOLHA - Por que motivo? Por que defendiam o socialismo com liberdade?
BARBOSA LIMA - Sim, perfeitamente. Fazia questão dessa liberdade, enquanto a corrente afinal vitoriosa na Rússia achava que isso era irrelevante e suprimiu a liberdade, estabelecendo a ditadura comunista, uma ditadura dos trabalhadores - como diziam - mas, de qualquer modo, uma ditadura.
FOLHA - Que consequência teve esse fato no Brasil na sua juventude?
BARBOSA LIMA - A mais importante delas foi, pouco depois, a fundação do Partido Comunista do Brasil e o crescimento desse partido, sobretudo com a adesão de Prestes ao comunismo (após a marcha da Columa Prestes), no começo dos anos 30. Com isso, constitui-se no Brasil a afirmação daquela tendência, de uma frente comunista que se identificava com a corrente vitoriosa na Rússia.
FOLHA - Tal fato gerou que reações?
BARBOSA LIMA - Houve, logo, intensa repressão, sobretudo no mundo ideológico e doutrinário. Eu não me filiei ao comunismo, embora fosse companheiro de quarto de Josias Leão, um militante do partido, ligado à corrente vitoriosa na Rússia. Quando cheguei ao Rio, em 1921, não tinha condições de ficar em instalações próprias e morei com Josias, algum tempo.
FOLHA - Por que deixou Pernambuco?
BARBOSA LIMA - Estava formado em Direito e já fazia Jornalismo. Tinha a intenção de lecionar na Faculdade de Direito de Recife. Fiz concurso, depois de obter distinção em todas as matérias do curso, e fui aprovado. Mas a cadeira para a qual me candidatara, e que me permitiria prosseguir nos estudos de Direito, tinha sido ocupada por outro candidato sem concurso, filho de um juiz pernambucano.
FOLHA - Era o tempo dos empistolados da república velha! Que tal essa república?
BARBOSA LIMA - Como regime, ela cumpriu seu destino, em fase de ralativa estabilidade do país, apesar das agitações dos anos 20. Mas não resolveu os problemas que me pareciam essenciais do Brasil, embora permitisse que os Estados continuassem a ter suas próprias perspectivas. O Sul tornou-se mais desenvolvido e o Nordeste amarrado às suas tradições coloniais. Isso acentuou-se tanto que, quando fui presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, por dez anos, procurei mudar o sistema de produção do açúcar do Norte para o Sul. Queria preservar o que havia de aceitável no elemento nortista, mas sem constranger, de modo algum, o desenvolvimento do sul, que estava enganjado, então, na idéia de criação de grandes usinas e numa produção ilimitada.
FOLHA - Qual foi a contribuição que Getúlio Vargas deu ao país, nesse período?
BARBOSA LIMA - No começo, confesso que tinha mais entusiasmo por Getúlio e registrei isso nos livros que escrevi (N.R.: Em 1993, saiu um livro de Barbosa Lima Sobrinho sobre a Revolução de 1930 - ‘‘A Verdade sobre a Revolução de Outubro’’ - considerada uma das obras mais isentas sobre aquele acontecimento, na qual, inclusive, ele desmistificava o papel de Vargas). Por isso, não deixava de lhe fazer restrições. Mais tarde, quando fui deputado, com a presença de Agamenon Magalhães - que era da corrente político-partidária a que me filiara em Pernambuco - integrei-me na linha nacionalista de Vargas. Fui, na Câmara, relator do projeto de criação do Instituto de Resseguros do Brasil! Em parecer de 60 a 70 páginas, contei a história dos segurados e dos seguros no Brasil, setor então dominado pelas empresas americanas, desde longa data, sem possibilidade alguma de êxito a qualquer tentativa de cooperação brasileira. E isso não me deixava contrariado. Entendia que os seguros eram uma categoria que teria de ficar livre ao acesso dos brasileiros, o que só viria a acontecer com a criação do IRB (N.R.: O projeto do IRB foi aprovado conforme Lima Sobrinho pretendia, em seu parecer, mas por intermédio de um decreto de Vargas, pois o Congresso, no qual a matéria tramitava, foi fechado com golpe do Estado Novo, de 11/11/1937).
FOLHA - E o governo Vargas, durante 15 anos, desde 1930?
BARBOSA LIMA - Esse fato causa, hoje, forte impressão, mas, com a ameaça de Hitler, o mundo se inclinara, à época, para os governos de longa duração. E a prova disso vinha dos Estados Unidos, onde o presidente Roosevelt, nos temos da Constituição americana, governou por três mandatos eletivos e foi eleito para um quarto, mas morreu antes de completá-lo. Isso, de alguma forma, justificava os 15 anos de Vargas. Quando, porém, acabou a II Guerra, reestabeleceu-se a democracia no Brasil, convocando-se as eleições gerais de dezembro de 1945. Fui eleito, na oportunidade, sendo, portanto, um dos constituintes que fizeram a Constituição de 46. Mas minha contribuição, no caso, foi modesta.

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