'Não há vantagem numa intervenção', diz Laerte, após ter trabalho usado em peça pró-golpe


DANIEL CARVALHO
DANIEL CARVALHO

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um desenho feito pela cartunista Laerte Coutinho nos anos 1980 para publicação em jornais de sindicato está sendo usado sem autorização da artista em um vídeo de autoria desconhecida e que defende uma intervenção militar que mantenha o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no comando do país.

"Faz parte de um conjunto de desenhos que eu liberei para uso de entidades sindicais, mas não para empresas ou grupos políticos", diz Laerte, cartunista do jornal Folha de S.Paulo.



O vídeo, de 4 minutos e 41 segundos, foi publicado na semana passada, mas a cartunista só foi alertada no início desta semana. Sem saber quem é o autor do vídeo, Laerte afirma não ter como ingressar com uma ação judicial e apenas fez uma notificação ao YouTube.

"Eu me sinto sei lá quantas vezes invadida e abusada porque, primeiro, é uma apropriação de um trabalho. Do ponto de vista autoral, é uma apropriação que não pode ser feita. Agora, tem a parte política, que é mais aguda", disse a cartunista, que reconheceu também o traço de outros colegas.

"São pessoas que claramente têm uma posição contra o governo e contra o fascismo e estão sendo usadas, eu acho, de maneira proposital. O caráter de provocação desse material é muito evidente", afirma.

A Secretaria de Comunicação da Presidência nega ter alguma relação com o vídeo, que sugere "tirar do governo todos os corruptos de uma só vez, sem atropelar a democracia". O narrador não identificado diz que o Brasil sofre ataques do marxismo cultural há algumas décadas e que a Constituição Federal de 1988 foi escrita por socialistas.

Além disso, afirma que Senado, Câmara e STF (Supremo Tribunal Federal) "são completamente tomados por bandidos". "Há, sim, uma maneira de promover uma limpeza em todas as instituições. Se chama intervenção militar", diz o narrador, enquanto surge na tela a #IntervençãoMilitarComBolsonaroNoPoder.

O vídeo diz que não se trata de ditadura e que, "na intervenção militar, mantendo o atual chefe do Executivo [no caso, Bolsonaro], poderemos, inclusive, corrigir a Constituição nos pontos que são explorados pelos corruptos, como, por exemplo, a questão do aborto, a prisão em segunda instância, o desarmamento civil etc".

Por fim, o vídeo orienta as pessoas a pedirem "intervenção militar com Bolsonaro no poder" na porta dos quartéis.

"A intervenção militar de 1964 não trouxe absolutamente nada de bom. Destruiu vidas, destruiu carreiras, destruiu instituições. Cultivou a corrupção, deixou o país quebrado, deixou o país com uma inflação altíssima e com uma taxa de corrupção muito alta. Então, é uma ilusão", disse Laerte, que, em 1975, durante a ditadura militar implementada em 1964, precisou fugir para o Espírito Santo para não ser presa.

"O que eu diria para essas pessoas é para elas procurarem se informar, porque não há nenhuma vantagem numa coisa como intervenção militar", afirmou ela.

Para a artista, a divulgação do vídeo faz parte de uma ação programada. "Estão certamente apostando num golpe militar, numa situação na qual eles vão estabelecer novas regras e novas ordens. Não é surpresa que o Eduardo Bolsonaro está dizendo que não é mais uma questão de 'se', é uma questão de 'quando'.O discurso de ameaça está cada vez mais claro mesmo", afirmou Laerte, mencionando o deputado federal pelo PSL-SP, filho do presidente.



Em uma live na noite de quarta-feira (27) ao lado de alvos da ação do Supremo contra fake news, Eduardo criticou decisões recentes dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Celso de Mello e defendeu reagir energeticamente contra a corte.

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