Curitiba - O juiz federal Sergio Moro disse nessa terça-feira (6), em entrevista coletiva, que optou por tirar férias antes de assumir o Ministério da Justiça, ao invés de pedir exoneração direta, por questões financeiras e de segurança. Ele também confirmou que teve contato com o economista Paulo Guedes antes do segundo turno das eleições, mas negou contato prévio com o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Foi a primeira vez que Moro falou com a imprensa desde o anúncio de que aceitou o convite de chefiar a pasta.

"Não estou praticando atos no presente; estou planejando a participação num governo futuro. Não pedi exoneração desde logo porque não enriqueci com o serviço público. Preciso dos vencimentos do serviço público para minha manutenção. E, principalmente, o efeito colateral negativo desses grandes casos são as ameaças e riscos que os juízes sofrem. Fico imaginando: peço exoneração hoje e daqui a um mês acontece algo comigo. Como fica a minha família? Devo correr esse risco?", questionou, em pergunta feita pela FOLHA.

O Estatuto da Magistratura, o Código de Ética dos juízes e a Constituição Federal proíbem que um magistrado exerça atividade político-partidária. "Não vejo problema. Existem aí situações de fantasmas da mente e as pessoas deveriam se preocupar com outras coisas. Qual o problema de o juiz tirar férias e começar a planejar o que vai fazer no futuro? Não estou assumindo cargo", frisou.

Moro falou que a declaração do vice-presidente eleito Hamilton Mourão, de que foi sondado para ocupar a pasta durante a campanha, procede. "Fui procurado pelo Paulo Guedes no dia 23 de outubro. Ele me trazia uma sondagem acerca do meu interesse de compor o governo. Adiantei meu entendimento sobre esse tema e disse que só poderia tratar depois das eleições. Mais ou menos declinei a ele o que seria necessário, qual tipo de proposta", contou.

"Em seguida houve, depois das eleições o convite público e o encontro [com Bolsonaro] em 1º de novembro, onde conversamos mais longamente sobre esse convite", prosseguiu. O juiz lembrou ainda do episódio em que ignorou o presidente eleito no aeroporto, em 2017. "Eu não o reconheci e não o cumprimentei. Posteriormente houve exploração de seus adversários políticos desse encontro. Tomei liberdade de ligar para ele e pedir escusas. Foi uma conversa muito rápida e não mais que isso".

LULA E PALOCCI
O futuro ministro rechaçou a tese de que tenha recebido uma espécie de "recompensa", após decidir pela prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), no caso do triplex do Guarujá. Barrado devido à Lei da Ficha Limpa, o petista liderava a disputa presidencial. "Minha decisão foi tomada em 2017, sem qualquer perspectiva de que o então deputado federal fosse eleito presidente da República".

De acordo com ele, Lula foi condenado a 12 anos e um mês de detenção e preso porque cometeu um crime, e não por causa das eleições. "Não posso pautar minha vida num álibi falso de perseguição política". O magistrado garantiu, da mesma forma, que não usará o cargo para perseguição política. "Na Lava Jato, pessoas foram condenadas com base em provas robustas. Todos têm direito a igual proteção da lei".

Em relação à quebra do sigilo da delação do ex-ministro Antonio Palocci e ao adiamento do depoimento de Lula, Moro afirmou que ambas as decisões seguiram o histórico da Operação, de dar aos fatos e às provas o máximo de publicidade. "Quando se divulga notícia falsa em eleição, é fake news. Quando a notícia é verdade, isso é direito à informação".

O juiz foi indagado, ainda, se Bolsonaro chegou a lhe prometer a indicação ao STF (Supremo Tribunal Federal), quando a vaga for aberta, possivelmente em 2020, com a aposentadoria de Celso de Mello. "Não estabeleci condições para assumir o Ministério. Conversei com o presidente eleito sobre uma pauta de convergências. Não há no momento uma vaga aberta no STF".

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