Não foi por acaso que a 21ª edição da Romaria da Terra do Paraná escolheu Tamarana (62 km ao sul de Londrina) de palco. Organizado anualmente pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Igreja Católica, o evento aconteceu no município que detém hoje um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) do Estado: 0,683. Dos mais de 10 mil habitantes, os dados da CTP apontam que 21,9% estão abaixo da linha da pobreza - a maioria, 69,14%, apenas da zona rural.
  A região de Tamarana, na Bacia do Tibagi, também é dos principais focos de conflito pela água no Paraná, já que no rio está prevista a construção de sete usinas hidrelétricas, ação contestada pela CPT. O conflito pela terra também é um importante traço social do local: só lá, há 17 assentamentos e 14 acampamentos.
  Este ano, o tema era ‘‘Sem fome e opressão: A aliança com os pobres é libertação’’, com a realização de missas e diversas apresentações teatrais evocando o combate à miséria e a conscientização por uma sociedade mais justa. Em bandeiras negras, pontuavam ‘males’ como a violência, a construção de hidrelétricas e até a transgenia de alimentos.
  Outro ponto forte da romaria, encerrada com um culto ecumênico por volta das 16 horas, foi a panfletagem de campanha e a presença de candidatos às eleições de outubro. Em praticamente toda a extensão da área de terra onde o evento foi realizado, santinhos, panfletos e jornais se mesclavam a bandeiras do MST e outros movimentos. Nem mesmo um cachorro foi poupado dos adesivos de candidatos.
  O arcebispo emérito de Londrina, Dom Albano Cavalin, destacou o papel de conscientização da romaria, com considerações à parte em relação à política partidária. ‘‘A gente procura manter a linha de que a romaria é um movimento religioso, pois Cristo manda cuidar dos pequenos, dos simples, dos pobres. Mas me parece quase impossível impedir essa panfletagem - é o preço da democracia’’, disse o arcebipo, para emendar um pedido ao eleitor: ‘‘Na verdade, o cristão tem a obrigação de fazer a sua escolha, se aprofundar nos programas dos candidatos e definir o voto. Esse é o jogo necessário da política partidária’’.
  Já o arcebispo de Londrina, Dom Orlando Brandes, declarou que ‘‘não vê com bons olhos’’ o uso político do evento, por parte de alguns participantes, mas ‘‘apenas aqueles que se aproveitarem da ocasião para fazer propaganda partidária. Se estão para apoiar o homem do campo, depois cobramos deles quando eleitos, aí é positivo’’. Sobre a romaria, a primeira de que participava no Paraná, Dom Orlando também a elogiou pela finalidade. ‘‘Precisamos resolver o problema da terra no Paraná e no Brasil, para não termos êxodo rural para as periferias. Assim, seriam diminuídos problemas como a violência e o tráfico nas cidades - mas as cidades precisam entender que dependem do campo’’.
  Segundo o coordenador nacional do CPT, padre Dirceu Luiz Fumagalli, ao todo foram reunidas entre 18 mil e 20 pessoas ontem - eram previstas 30 mil. ‘‘Nossa avaliação é positiva, era o número real que esperávamos’’, disse, creditando ao tempo seco e à condição econômica dos participantes (que arcam com o transporte) a diminuição da adesão. (J.G.)#

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