Os moradores da Rua Lavapés, no bairro Cambuci, em São Paulo, onde a malhação de Judas tem tradição de 44 anos, escolheram o juiz Nicolau dos Santos Neto, o ‘‘Lalau’’ (foto), como o grande ‘‘traidor’’. A comerciante Shirlei Chaves Mori, 72 anos, é conhecida como a ‘‘rainha da malhação de Judas’’ e organiza desde 1957 o evento, realizado todo ano no Sábado de Aleluia. ‘‘Vou colocar balas na cabeça do Lalau para a criançada’’, disse ela.
O evento começa por volta das 10h30, quando a polícia chega para fechar a rua. Após a malhação, as crianças costumam fazer guerra de ovos. ‘‘Uma vez a polícia não gostou e a gente quase foi malhado por eles por causa dos ovos’’, afirmou Douglas Fernando Filho, 14 anos.
Segundo alguns moradores, a tradição perdeu a força em decorrência de atos violentos nos últimos anos. Segundo eles, em alguns casos, as pessoas aproveitam para descontar a raiva em seus desafetos. ‘‘Já foi bom isso aqui. Hoje ocorre muita violência, por isso que todo ano enche de policiais aqui’’, disse o escriturário Jaime dos Santos, 28 anos.
Na Rua do Glicério, o comerciante Osvaldo Rodrigues, o Magrão, 42 anos, conhecido como ‘‘rei do Judas’’, disse que o escolhido para a malhação é o presidente Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Sempre escolhi políticos ruins. Certa vez o Janio Quadros (ex-prefeito de São Paulo) quis me prender porque eu malhei ele’’, disse.
Já no Bexiga, onde a tradição também já está próxima de fazer meio século de vida, os organizadores confeccionaram cinco bonecos, todos representando a classe política brasileira. ‘‘Preferimos nem dar nomes. O ideal seria que conseguimos escolher outra classe para representar Judas. Mas está difícil’’, disse o administrador de empresas Sergio Lúcio de Oliveira, 49 anos, que há 40 anos participa da festa. Segundo ele, para este ano, serão distribuídos 700 ovinhos de Páscoa doados por uma empresa’’.

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