Multidão, em Londrina, apoiou golpe
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terça-feira, 30 de março de 2004
Cristiane Oya<br>Reportagem Local 
31 de março de 1964. Tropas do Exército comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho partem de Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro. Há exatos 40 anos se iniciava um dos mais turbulentos períodos da democracia brasileira. Era o início do golpe de 1964, que resultou em uma ditadura militar que duraria mais de 20 anos.
O medo de militares e importantes segmentos da sociedade da ascensão do ''perigo comunista'' ao poder, fez com que já nos primeiros dias após o golpe, inúmeras pessoas ligadas a setores politicamente ''à esquerda'' fossem presas e submetidas à tortura e até mesmo desaparecessem.
A aliança entre os governadores Carlos Lacerda (Guanabara), Adhemar de Barros (São Paulo) e Magalhães Pinto (Minas Gerais), para derrubar o governo do presidente João Goulart, estava sendo esquematizado dois meses antes do golpe. O governador do Paraná Ney Braga, também aderiu à aliança após receber em Curitiba, a visita de Lacerda.
Os paranaenses também sentiram na pele os efeitos da repressão. Só para se ter uma idéia, em 1998, 236 paranaenses requereram indenização ao governo do Estado, paga às pessoas que tenham sofrido lesão física e psicológica entre os anos de 1961 e 1979.
Em Londrina, cidade com então 29 anos de fundação, essencialmente agrícola, os acontecimentos que tomaram conta de toda madrugada do dia primeiro no eixo Minas/Rio/São Paulo, chegavam com a velocidade do rádio e dos jornais. No dia primeiro de abril de 1964, a Folha de Londrina traz a manchete: ''Jango denuncia: Trama revolucionária em MG''. Em nota oficial, a presidência da República diz: ''Na manhã de hoje (dia 31), parte da guarnição federal sediada em Minas Gerais, rebelou-se, sob o comando dos generais Pinto Guedes e Olímpio Mourão Filho, inspirados no manifesto lançado pelo governador daquele estado, contra a ordem constitucional e os poderes constituídos''. No dia seguinte, a Folha noticia a saída do presidente João Goulart do Distrito Federal, a caminho do Rio Grande do Sul, e a reportagem ''Ampla expectativa e intenso policiamento, mas ordem e calma absolutas em Londrina''.
Apesar da aparente calma garantida pelo patrulhamento nas ruas e prédios públicos, na manhã do dia dois de abril, centenas de londrinenses fizeram manifestações em apoio à ação dos militares. ''Uma agitada multidão concentrou-se ontem pela manhã, em frente ao edifício onde funcionam os serviços locais do jornal 'Última Hora', enquanto algumas pessoas punham abaixo um anúncio luminoso da empresa, instalado junto às janelas do primeiro pavimento. Anteriormente, o povo havia se reunido no Largo da Prefeitura, disposto a depredar as instalações internas da sucursal daquele órgão de imprensa'', diz uma reportagem publicada na Folha no dia 3. ''Veio um pelotão da PM comandado por um tenente de Curitiba, e não deixou ninguém entrar, mas o povo estava muito agitado. Chegou o delegado civil Ladislau Bukowski, que queria permitir que entrasse alguém, mas o tenente não deixou. Foi então que acharam uma alternativa: a sucursal tinha na frente um relógio muito bonito, um luminoso com o nome do jornal, e embaixo um retângulo vermelho. Achavam que esse retângulo era o símbolo do comunismo. Então deixaram que quebrassem o relógio'', relatou o jornalista Jota Oliveira, um dos oito repórteres que trabalhavam na sucursal da Última Hora.
Através da Rádio Clube Paranaense, que fazia parte da Cadeia Radiofônica Democrática, o prefeito de Londrina José Hosken de Novaes, anunciou no dia dois de abril, apoio à posição de Ney Braga e se referiu a João Goulart como ''ex-presidente''.
No dia quatro de abril, a exemplo do que aconteceu antes em várias capitais, milhares de londrinenses saíram às ruas na ''Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade''. No dia seguinte, A Folha publica material intitulado ''Povo comemora nas ruas de Londrina o revés da ação comunista no Brasil''. ''Todos os oradores repudiaram veementemente os regimes de exceção, especialmente o comunismo, ao mesmo tempo em que exaltavam a democracia e a revolta anticomunista dos últimos dias'', diz a reportagem.
Segundo a professora de Sociologia da Universidade Estadual de Londrina, Maria José Rezende, não se pode negar ''que o estabelecimento do golpe e a durabilidade daquele regime contaram com o apoio de uma parte da população brasileira''. ''A Marcha da Família com Deus pela Liberdade que aconteceu no dia 19 de março de 1964 e que contou com milhares de pessoas nas ruas de São Paulo, por exemplo. Os partícipes da ditadura, até hoje, afirmam que eles estavam respaldados em ações dessa natureza, as quais se autodefiniam como empenhadas em proteger a família, a cidade e a religião contra as esquerdas que estariam ganhando terreno no país'', analisou.
Apesar de todos os instrumentos de aceitabilidade do regime imposto inicialmente embasado na repressão e no medo e posteriormente pela difusão do desenvolvimentismo pregado pelos militares para a população através de escolas e meios de comunicação não impediram o surgimento de movimentos de oposição ao governo. ''A realidade social é de extrema complexidade. Portanto, ter conseguido um certo sucesso em seu empenho de ganhar aceitabilidade não significou o não-surgimento de diversos movimentos que se opuseram, durante anos, às práticas autoritárias. Foram muitos os movimentos que emergiram nos anos 70 e que punham em questão a própria pretensão de legitimidade da ditadura militar'', disse a professora.


