Brasília - Apesar de afirmar por diversas vezes que é uma dona de casa que se dedica apenas a cuidar dos filhos e que não tinha conhecimento do que se passava nas agências SMPB e DNA Propaganda, das quais é sócia, Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza afirmou ontem, em depoimento à CPI dos Correios, que o deputado José Dirceu (PT-SP) negociou os supostos empréstimos feitos pelas empresas ao PT. Com isso, a mulher do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser o operador do ''mensalão'', implicou diretamente o ex-chefe da Casa Civil no caso. Dirceu nega a versão.
Afirmou que seu marido concordou com os empréstimos bancários a pedido do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares por ''temer represálias nos contratos que já mantinha com estatais''. Sem que lhe fosse perguntado, declarou detalhadamente que ''José Dirceu sabia dos empréstimos e, inclusive, participou de uma reunião com a direção do Banco Rural no hotel Ouro Minas, em Belo Horizonte''. Além disso, revelou que o ex-ministro da Casa Civil também teria se encontrado com diretores do BMG, em Brasília, para acertar o pagamento dos empréstimos.
O depoimento de Renilda começou às 11h25 e não havia terminado até o fechamento desta edição. Foi marcado pela repetição de negativas da mulher de Valério e alguns momentos em que ela chorou, principalmente ao falar dos efeitos da crise atual sobre sua família. A exemplo de outros depoentes, Renilda poupou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Disse que seu marido não o conhece pessoalmente. Para os parlamentares, tanto da oposição quanto da base de apoio do governo, ela estava ''ensaiada'' para responder às perguntas sempre com os mesmos argumentos.
''Ela veio muito bem preparada para entregar o nome de Dirceu e dos sócios, tirando a culpa única do marido'', disse o senador César Borges (PFL-BA). A deputada Juíza Denise Frossard (PPS-RJ), questionou Renilda sobre a veracidade de suas informações. ''Seu depoimento parece verdadeiro, mas não é'', disse a deputada. ''É impressionante que a senhora e seu sócio, que é seu marido, não conversassem sobre as empresas. À noite, na cama, o casal conversa. A senhora não perguntava como haviam comprado tudo isso?''.
O presidente da CPI, Delcídio do Amaral (PT-MS), minimizou a revelação de que José Dirceu teria participado de negociações com bancos para tratar das dívidas do PT. ''O fato de que José Dirceu sabia não é nada demais porque os dirigentes do partido deviam saber'', afirmou o senador. Na época, Dirceu era ministro e não dirigente partidário, apesar de pertencer ao Diretório Nacional.
Renilda, que viu recusado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de liminar que a dispensasse de ficar calada, aparentou calma, exceto nos momentos em que chorou ao falar de sua família - Valério e dois filhos. Os integrantes da CPI decidiram ouvi-la como investigada, dispensando-a de assinar termo de dizer a verdade e permitindo, se assim desejasse, que ficasse em silêncio para não se comprometer com declarações que pudessem autoincriminá-la.
Renilda, que é pedagoga por formação, disse não acreditar no ''mensalão'' e, como declararam Delúbio e Marcos Valério, Renilda justificou os saques e repasses de dinheiro para políticos como ''dinheiro para campanhas''.

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