Guararema - O Movimento dos Sem-Terra (MST) inaugura no próximo domingo sua obra mais ambiciosa na área da educação - a Escola Nacional Florestan Fernandes. Localizada numa chácara de 30 mil metros quadrados, no município de Guararema, interior de São Paulo, e com capacidade inicial para 200 alunos, ela custou US$ 1,3 milhão. Seu foco principal será a formação de quadros do movimento nas áreas de ciências humanas e sociais. A meta é transformar a escola em um instituto de educação de nível superior reconhecido pelo Ministério da Educação.
O ministro Tarso Genro é uma das figuras mais esperadas na festa de inauguração, que reunirá mil convidados. A lista dos notáveis também inclui os nomes dos ministros Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, e José Fritsch, de Aquicultura e Pesca. O presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e parlamentares petistas de vários Estados também são aguardados.
Em Guararema, uma brigada de 50 homens, provenientes de diferentes acampamentos e assentamentos, tem trabalhado de forma intensa na tentativa de concluir a obra. O MST quer uma grande festa para anunciar a obra com que pretende fincar de vez o pé na área do ensino universitário.
A escola nacional faz parte de um conjunto de iniciativas que a organização vem tomando nesse setor. Em universidades federais de diferentes Estados já estão em andamento convênios com o movimento para a formação de pessoas originárias de seus acampamentos e assentamentos. Um exemplo são os cursos de agronomia voltados especificamente para esse público nas federais do Pará e de Sergipe.
Se tudo correr como querem os líderes do MST, Guararema deve se tornar uma área voltada para cursos de pós-graduação e especialização. A data de inauguração foi escolhida por causa do Fórum Social Mundial, que começa dali a três dias, em Porto Alegre. A direção do MST quer apresentar sua obra a representantes de organizações não-governamentais da Europa, que estarão no Brasil para participar daquele outro evento.
Financiadores - Há pelo menos duas razões para essa preocupação. A primeira é que o dinheiro da construção - exatamente US$ 1.288.680,88, segundo a assessoria do MST - veio da União Européia. Saiu de um fundo destinado ao financiamento de ações de desenvolvimento sustentável em comunidades urbanas e rurais, organizado em parceria com instituições não-governamentais. No caso da Escola Florestan Fernandes, estiveram envolvidas as organizações cristãs Frères Des Hommes, da França, e a Cáritas, alemã.
O dinheiro foi enviado para a Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca). Trata-se da entidade legal para a qual são carreadas as doações feitas ao MST, uma vez que o movimento não tem nenhum tipo de estrutura legalmente reconhecida. Também foi a Anca que recebeu o dinheiro angariado pelo fotógrafo Sebastião Salgado com a exposição sobre os sem-terra que levou a vários países. Ele serviu para a compra da chácara onde se ergueu a escola, às margens da Via Dutra.
A segunda razão para a escolha da data de inauguração também é financeira. Os sem-terra pretendem convencer os europeus a financiar a segunda parte da escola, com capacidade para outros 200 estudantes. Buscam um acordo semelhante ao que vigorou até agora, no qual o MST entra com a mão-de-obra, recrutada em seus acampamentos e assentamentos, e os europeus, com o dinheiro.
Os coordenadores do movimento também querem convencer o governo federal a pôr dinheiro na escola. Eles já haviam tentado isso no governo de Fernando Henrique Cardoso, sem sucesso. As chances agora são boas. Segundo Adelar Pizetta, da cooordenação pedagógica da nova escola, a estatal Eletrobrás está financiando uma rede especial para levar energia elétrica até a escola, uma vez que a estrutura existente no lugar é insuficiente. Por outro lado, o Banco do Brasil incluiu o MST em seu programa de inclusão digital e doou um conjunto de 20 computadores para o laboratório de informática.

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