Recife- Cerca de 300 líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) de todo o país começam a discutir hoje, em Pernambuco, a posição da entidade em relação ao futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A reunião, que termina quarta-feira, será realizada no assentamento da fazenda Normandia, na zona rural de Caruaru, município do agreste onde está a sede do movimento no Estado.
Além da posição do MST em relação ao futuro governo, os sem-terra deverão discutir no encontro as reivindicações que consideram prioritárias. O movimento apoiou Lula nas eleições.
Um dos temas polêmicos que possivelmente estará em pauta é a lei que suspende por dois anos o processo de reforma agrária nas propriedades invadidas.
Instituída por medida provisória pelo atual governo, a lei conseguiu frear as invasões, mas é considerada ''ditatorial'' pelo MST. Os trabalhadores sem-terra tendem a pedir sua revogação ao futuro presidente.
As lideranças do movimento, entretanto, sabem que terão de encontrar uma posição intermediária para não pressionar demais o governo no início de sua gestão e, ao mesmo tempo, não abrir mão de algumas reivindicações históricas do grupo.
Um indício de que encontrar esse ponto de convergência preocupa o MST são as declarações feitas à Agência Folha na quinta-feira passada por Gilmar Mauro, membro da coordenação nacional do movimento.
Mauro afirmou que considera ''impossível'' que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, acabe com os problemas da reforma agrária no país em quatro anos de governo.
''É uma ilusão pensar que tudo vai ser resolvido. É impossível, nas condições atuais'', disse. ''O que acredito é que poderá haver avanços, se houver participação popular'', declarou.
O líder sem-terra defendeu que o MST adote uma posição de ''autonomia crítica'' em relação ao próximo governo. ''Não podemos adotar uma posição sectária, de esquerda infantil, nem de alinhamento automático'', disse. ''Temos que cobrar e estimular ao máximo o governo para que faça as reformas necessárias.'' Sobre as invasões de terra, Gilmar Mauro disse que elas deverão continuar no próximo governo. Uma eventual trégua do movimento, afirmou, ''não está colocada em pauta''.
Para Mauro, a concessão de uma trégua ''reduziria a questão a um ato meramente político''. O movimento, afirmou, considera as invasões ''não apenas um ato político, mas também parte de um modelo de reivindicações, como são as greves para os trabalhadores urbanos''.
O posicionamento oficial do MST será apresentado às demais entidades ligadas à questão da terra no Brasil no próximo dia 26, durante reunião da Via Campesina, que congrega organizações populares ligadas à luta pela reforma agrária.

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