Arquivo FolhaRoberto Baggio: ‘‘Nenhum governo foi bom para o MST’’O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná não vai participar formalmente da disputa pelo governo do Estado. A decisão foi tornada pública ontem pelo coordenador do movimento no Estado, Roberto Baggio, em entrevista à Folha. ‘‘O MST do Paraná preferiu centralizar as discussões na sucessão presidencial. O que entendemos como fundamental é o debate do modelo apresentado pelo presidente da República Fernando Henrique e de uma nova perspectiva popular de mudanças com o Lula ’’, assinalou.
‘‘Não vamos nos manifestar. Nenhum governo foi bom para o MST, desde 80. Passou Richa, Álvaro, Requião e Lerner. A reforma agrária continua longe’’, criticou. Segundo Baggio, só um presidente da República tem poder para encaminhar de forma mais justa a questão fundiária.
A neutralidade do MST foi decidida até por uma questão estratégica para não impor posições e dispersar o movimento. Há entre as 20 mil famílias espalhadas nos 150 assentamentos e nos 90 acampamentos do Estado, sem-terra que defendem a candidatura de Requião por entenderem que a sua proposta é um apêndice do projeto alternativo de Lula, e sem-terra que pregam a reeleição de Lerner, confirma Baggio. Mesmo assim, os dois principais candidatos ao Palácio Iguaçu deverão enfrentar resistências na caça aos votos.
Desde que assumiu, em janeiro de 95, o governador viveu momentos de tensão na briga pela terra. Tentando acomodar sem-terra e ruralistas, Lerner enfrentou barreiras para avançar na regularização dos assentamentos. A mal-sucedida ação policial em Santa Isabel do Ivaí (92 km a oeste de Paranavaí), onde trabalhadores rurais trocaram agressões e foram atingidos com tiros nas pernas por policiais, é o ‘tendão de Aquiles’ de seu governo com o movimento. O caso ainda tramita na Justiça. Além disso - para conseguir votos dos sem-terra - Lerner terá de diluir as ligações do MST com o PT, que coliga com o PMDB nesta eleição.
Argumentos para rebater acusações desta ordem é o que não falta no discurso dos ‘‘lerneristas’’. Bem ou mal o governo conseguiu contornar a crise e retomar negociações que antes estavam abandonadas. Mais que o conflito, os aliados do governador tentarão passar a imagem de que o governo Lerner desarmou o campo, promoveu o diálogo entre MST e UDR, e avançou na reforma agrária no Estado.
O ‘‘fantasma’’ que faz o senador Requião perder o sono é o ‘‘Caso Teixeirinha’’, ressuscitado na semana passada com o depoimento do conselheiro do Tribunal de Contas, Nestor Baptista, convocado pelo Centro de Operações Especiais da Polícia Civil (Cope) para prestar depoimento sobre a execução do líder sem-terra da região Oeste, Diniz Bento da Silva. Nesta semana, é a vez o ex-governador Mário Pereira fazer considerações sobre o caso, que teve repercussão nacional e que ocorreu durante o terceiro ano da gestão Requião.
O PT tenta aparar quaisquer prevenções do MST com militância. O vice-presidente do partido, vereador curitibano Jorge Samek, disse que a decisão do MST de não apoiar nenhum dos candidatos ao governo deve ser respeitada, mas que isso não é impedimento para o partido buscar votos dentro do movimento.

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