O chefe do Ministério Público Federal (MPF), Geraldo Brindeiro, foi alertado sobre denúncia de corrupção na obra da futura sede da Procuradoria-Geral da República em Brasília, mas não investigou o caso porque considerou ‘‘especulação’’. O empreendimento, iniciado em 1996, consumiu R$ 58,9 milhões do Tesouro – pelo menos outros R$ 12,5 milhões serão investidos por conta de aditivos contratuais e correções monetárias quando da liberação dos recursos.
Brindeiro foi informado em reunião ocorrida em maio de 1999, no Aeroporto de Brasília, pelos procuradores Rodrigo Janot Monteiro de Barros e Antonio Carlos Alpino Bigonha. Em meio a conversa tensa, o procurador-geral foi advertido sobre a suspeita de ‘‘graves irregularidades’’ na execução do contrato.
Janot e Bigonha relataram a Brindeiro que o arquiteto Carlos Magalhães os havia procurado para revelar detalhes de uma proposta que lhe teria sido feita por um funcionário do próprio MPF, integrante da equipe encarregada de acompanhar as obras. Ex-secretário de Obras do governo José Aparecido (1985-88), no Distrito Federal, Magalhães é representante do escritório Arquitetura e Urbanismo Oscar Niemeyer S/C Ltda.
O técnico do MPF informou a Magalhães que estava sendo preparado aditivo contratual no valor de R$ 24 milhões (50% do montante original). Para justificar o adicional, o arquiteto teria de assinar documento atestando a existência de alterações em planilha referente a instalações elétricas e outros itens. Magalhães reagiu à proposta. ‘‘O escritório do Niemeyer não vai entrar em um negócio desses.’’
Com a resistência do arquiteto, o funcionário do MP ainda insistiu: ‘‘Tem dinheiro na jogada, vai sobrar para você também.’’ A ‘‘comissão’’ custaria 20% (R$ 4,8 milhões), sendo 15% para procuradores e 5% para o arquiteto.
A cúpula do MPF confirmou sexta-feira o encontro de Brindeiro com os procuradores em maio de 99. Segundo uma ‘‘nota de esclarecimento’’, ‘‘após aquela conversa informal e rápida, até a presente data, nenhuma formalização de denúncia ou até mesmo o assunto retornou ao procurador-geral’’.

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