MPF cerca envolvidos com precatórios
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sexta-feira, 14 de julho de 2000
Da Redação 
O Ministério Público Federal (MPF) divulgou uma nota ontem informando que está processando criminalmente os empresários curitibanos Gerhard Fuchs e Ernesto de Veer, proprietários das empresas do Grupo Transoceânica e envolvidos no escândalo dos precatórios. Através de uma rede de nove empresas fantasmas, Fuchs e de Veer teriam movimentado, em outubro de 1996, cerca de R$ 10 milhões provenientes de lucros obtidos em negociações supostamente fraudulentas com títulos públicos emitidos irregularmente pelo Estado de Santa Catarina.
Fuchs, De Veer e outros oito denunciados (funcionários dos empresários, um ex-bancário e um gerente de banco) respondem a três ações penais na 1ª e 3ª Varas Federais Criminais de Curitiba pelos crimes de formação de quadrilha, gestão fraudulenta de instituições financeiras, operação ilegal de câmbio, sonegação fiscal, falsificação de documentos, remessa ilegal de moeda para o exterior e lavagem de dinheiro. A Justiça Federal também analisa pedido apresentado pelo MPF de sequestro de bens de todos os denunciados.
Três procuradores do Núcleo de Investigações Criminais da Procuradoria República em Curitiba Elton Venturi, Jaime Arnoldo Walter e Marcela Moraes Peixoto assinam as denúncias. A que resultou na ação principal foi recebida pelo juiz federal Luiz Antonio Bonat, da 3ª Vara Federal Criminal, no dia 29 de junho. São réus: os sócios Gerhard Fuchs e Ernesto de Veer; Silviano Tenório Câmara Filho, à época dos fatos gerente da agência do Banco do Brasil do Alto da XV, em Curitiba, atualmente lotado na agência do Portão; Nilson dos Santos, comerciante, ex-gerente do Banco do Brasil; Altair Bora, Orlando Luiz de Miranda, Rafael Valério Suckow Bier, Eric Fuchs, Karin Elizabeth Borschein e Eversong Paulo Zuba, todos funcionários ou ex-funcionários dos empresários.
A partir de informações repassadas pela CPI dos Precatórios, o MP, com a colaboração com o BC e a Receita Federal, coordenou as investigações no Paraná que chegaram até Fuchs e De Veer.
Fuchs e De Veer seriam sócios e administradores das instituições financeiras Transoceânica, Transcorp e Corporation, atuando na área de distribuição de títulos e valores mobiliários e, também, na venda de passagens e câmbio. Eles são acusados de montar uma rede de empresas fantasmas para fazer transitar entre elas vultosas somas provenientes de negociações com os títulos catarinenses, de modo a dificultar a fiscalização e, ao final, remeter o dinheiro ao exterior.
As oito empresas fantasmas identificadas pelo MPF, apontadas pelo relatório divulgado ontem são: Asempre Consultoria e Assessoria Empresarial Ltda; KWO Administradora de Bens e Participações Ltda; Comércio de Cereais W.P. Ltda; Condel Representações Ltda; Dorbon Administração de Bens e Serviços Ltda; Livraria Adonai Ltda; Barretos Distribuidora de Carnes Ltda; Alpha CPT S/C Ltda e Seneal Comércio, Exportação e Importação Ltda. Todas foram fundadas em nome de pessoas inexistentes ou que haviam tido documentos perdidos ou furtados, e eram administradas por prepostos de Fuchs e De Veer. Os empresários contariam, ainda, com a colaboração do gerente do Banco do Brasil Silviano Tenório Câmara Filho, da agência Alto da XV, em Curitiba, onde todas as empresas fantasmas tinham contas.
Nos dias 24 e 25 de outubro de 1996, uma das empresas fantasmas, a Asempre Assessoria Empresarial, recebeu um total de R$ 9.635.419 em depósitos efetuados pela IBF Factoring, sediada em São Paulo, uma das empresas que mais lucraram com as negociações de títulos públicos. Nos dias seguintes, aquela quantia foi dispersada e repassada a diversas pessoas físicas e jurídicas, todas coligadas aos denunciados, formando um emaranhado com o objetivo de dificultar a fiscalização nessas operações de ida e volta, em três meses transitou pelas contas da empresa Asempre a quantia de R$ 29 milhões, conforme detectado pela CPI dos Precatórios e a Receita Federal.
Para a lavagem do dinheiro, segundo a denúncia do MPF, a quadrilha utilizou-se de financeiras e empresas de turismo coligadas ao grupo, tais como a Transcorp Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, Banordic Financial Corporation, Transoceânica Passagens e Turismo, Corporation Câmbio e Turismo e Jade Turismo. Através delas, foram simuladas operações de câmbio, o que facilitou a remessa de boa parte dos valores para o exterior.
As investigações constataram que parte dos recursos repassados à Asempre foi remetida a Foz do Iguaçu, através da agência Ponte da Amizade do Banestado. Outra parte do dinheiro foi para o exterior pela Banordic, sediada em paraíso fiscal e que seria administrada por Fuchs e De Veer. O rastreamento dos recursos remetidos ao exterior, bem como o levantamento do montante total, ainda são objeto de apuração pelo BC.
A Folha tentou entrar em contato com Fuchs e obteve a informação de que ele está em férias; a mulher de De Veer disse que ele não queria falar, mas que hoje seu advogado poderia atender.


