O Ministério Público Federal (MPF) divulgou uma nota ontem informando que está processando criminalmente os empresários curitibanos Gerhard Fuchs e Ernesto de Veer, proprietários das empresas do Grupo Transoceânica e envolvidos no ‘‘escândalo dos precatórios’’. Através de uma rede de nove empresas fantasmas, Fuchs e de Veer teriam movimentado, em outubro de 1996, cerca de R$ 10 milhões provenientes de lucros obtidos em negociações supostamente fraudulentas com títulos públicos emitidos irregularmente pelo Estado de Santa Catarina.
Fuchs, De Veer e outros oito denunciados (funcionários dos empresários, um ex-bancário e um gerente de banco) respondem a três ações penais na 1ª e 3ª Varas Federais Criminais de Curitiba pelos crimes de formação de quadrilha, gestão fraudulenta de instituições financeiras, operação ilegal de câmbio, sonegação fiscal, falsificação de documentos, remessa ilegal de moeda para o exterior e lavagem de dinheiro. A Justiça Federal também analisa pedido apresentado pelo MPF de sequestro de bens de todos os denunciados.
Três procuradores do Núcleo de Investigações Criminais da Procuradoria República em Curitiba – Elton Venturi, Jaime Arnoldo Walter e Marcela Moraes Peixoto – assinam as denúncias. A que resultou na ação principal foi recebida pelo juiz federal Luiz Antonio Bonat, da 3ª Vara Federal Criminal, no dia 29 de junho. São réus: os sócios Gerhard Fuchs e Ernesto de Veer; Silviano Tenório Câmara Filho, à época dos fatos gerente da agência do Banco do Brasil do Alto da XV, em Curitiba, atualmente lotado na agência do Portão; Nilson dos Santos, comerciante, ex-gerente do Banco do Brasil; Altair Bora, Orlando Luiz de Miranda, Rafael Valério Suckow Bier, Eric Fuchs, Karin Elizabeth Borschein e Eversong Paulo Zuba, todos funcionários ou ex-funcionários dos empresários.
A partir de informações repassadas pela CPI dos Precatórios, o MP, com a colaboração com o BC e a Receita Federal, coordenou as investigações no Paraná que chegaram até Fuchs e De Veer.
Fuchs e De Veer seriam sócios e administradores das instituições financeiras Transoceânica, Transcorp e Corporation, atuando na área de distribuição de títulos e valores mobiliários e, também, na venda de passagens e câmbio. Eles são acusados de montar uma rede de empresas fantasmas para fazer transitar entre elas vultosas somas provenientes de negociações com os títulos catarinenses, de modo a dificultar a fiscalização e, ao final, remeter o dinheiro ao exterior.
As oito empresas fantasmas identificadas pelo MPF, apontadas pelo relatório divulgado ontem são: Asempre Consultoria e Assessoria Empresarial Ltda; KWO Administradora de Bens e Participações Ltda; Comércio de Cereais W.P. Ltda; Condel Representações Ltda; Dorbon Administração de Bens e Serviços Ltda; Livraria Adonai Ltda; Barretos Distribuidora de Carnes Ltda; Alpha CPT S/C Ltda e Seneal Comércio, Exportação e Importação Ltda. Todas foram fundadas em nome de pessoas inexistentes ou que haviam tido documentos perdidos ou furtados, e eram administradas por prepostos de Fuchs e De Veer. Os empresários contariam, ainda, com a colaboração do gerente do Banco do Brasil Silviano Tenório Câmara Filho, da agência Alto da XV, em Curitiba, onde todas as empresas fantasmas tinham contas.
Nos dias 24 e 25 de outubro de 1996, uma das empresas fantasmas, a Asempre Assessoria Empresarial, recebeu um total de R$ 9.635.419 em depósitos efetuados pela IBF Factoring, sediada em São Paulo, uma das empresas que mais lucraram com as negociações de títulos públicos. Nos dias seguintes, aquela quantia foi dispersada e repassada a diversas pessoas físicas e jurídicas, todas coligadas aos denunciados, formando um emaranhado com o objetivo de dificultar a fiscalização – nessas operações de ida e volta, em três meses transitou pelas contas da empresa Asempre a quantia de R$ 29 milhões, conforme detectado pela CPI dos Precatórios e a Receita Federal.
Para a lavagem do dinheiro, segundo a denúncia do MPF, a quadrilha utilizou-se de financeiras e empresas de turismo coligadas ao grupo, tais como a Transcorp Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, Banordic Financial Corporation, Transoceânica Passagens e Turismo, Corporation Câmbio e Turismo e Jade Turismo. Através delas, foram simuladas operações de câmbio, o que facilitou a remessa de boa parte dos valores para o exterior.
As investigações constataram que parte dos recursos repassados à Asempre foi remetida a Foz do Iguaçu, através da agência Ponte da Amizade do Banestado. Outra parte do dinheiro foi para o exterior pela Banordic, sediada em paraíso fiscal e que seria administrada por Fuchs e De Veer. O rastreamento dos recursos remetidos ao exterior, bem como o levantamento do montante total, ainda são objeto de apuração pelo BC.
A Folha tentou entrar em contato com Fuchs e obteve a informação de que ele está em férias; a mulher de De Veer disse que ele não queria falar, mas que hoje seu advogado poderia atender.

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