A precipitação do Ministério Público Federal em anunciar antecipadamente o pedido de prisão preventiva do ex-senador Luiz Estevão, segundo avaliação da Polícia Federal e até mesmo da Justiça, pode ter facilitado o trabalho de sua defesa e desgastado as instituições no episódio. Estevão foi cassado anteontem pelo Senado, acusado de envolvimento no desvio de verbas das obras do prédio do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Até as 19h30 de ontem, o juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, Ronaldo Desterro, não havia decidido sobre a prisão de Estevão.
Um dia antes da sessão que cassou o mandato de Estevão, um grupo de procuradores já preparava o pedido de prisão preventiva por causa de 27 irregularidades que teriam sido descobertas na Planalto Administradora de Consórcio. ‘‘Esse é um processo inoportuno e antigo’’, disse o advogado de Estevão, Felipe Amodeo. ‘‘O crime não prescreveu e dizer que é inoportuno é piada’’, rebateu o procurador Luiz Francisco de Souza.
O Ministério Público de Brasília esperava que seus colegas de São Paulo também agissem em conjunto, impetrando um pedido de prisão na Justiça Federal paulista baseando-se nas irregularidades do TRT. Isso, entretanto, até a noite não havia ocorrido.
Um dia antes da cassação de Estevão, os procuradores do Distrito Federal chegaram a convocar a PF para armar o esquema de captura do ex-senador após a decretação da prisão. O monitoramento começou a partir da noite de terça-feira e até a noite de ontem estava sendo mantido. ‘‘Isso causa um desgaste desnecessário’’, afirma um delegado que participa da operação.
O episódio causou constrangimento dentro da PF, que se viu obrigada a vigiar ostensivamente o ex-senador. Diante disso, Estevão armou sua defesa para mostrar que não tinha motivos para fugir, que tinha residência fixa e pretendia esperar pela Justiça para esclarecer seu envolvimento com as irregularidades. Ele entregou seu passaporte no Supremo Tribunal Federal (STF) e comprometeu-se a apresentar-se sempre que fosse solicitado.
Constantemente seguido por agentes da PF, o ex-senador tentou durante todo o dia demonstrar que voltou à vida normal de empresário e não pretende fugir. Por duas vezes, ele saiu de sua mansão, no Lago Sul e foi à sede do Grupo OK, no centro de Brasília. Na asa Norte, onde foi visitar obras, foi reconhecido e vaiado por populares.
No retorno, o ex-senador se irritou com a presença da PF. Parou seu carro e afirmou aos agentes: ‘‘Não se preocupem, eu não vou fugir.’’
O empresário Valmir Amaral (PMDB-DF) suplente de Estevão, é investigado pelo Ministério Público em razão de irregularidades como empréstimos fraudulentos. O caso é semelhante ao da cassação do ex-deputado Hildebrando Pascoal (sem partido-AC), envolvido em assassinatos. O então suplente José Aleksandro da Silva (PFL-AC) assumiu o cargo, mesmo sendo alvo de processos.
Amaral deverá tomar posse em agosto. Ontem, ele, que se isolou na fazenda de um amigo, evitou dar declarações. Ele deveria voltar para casa ontem à tarde, mas adiou, ao saber que a posse somente ocorrerá em agosto.

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