A Câmara de Vereadores de Londrina deve voltar à berlinda, nos próximos dias, ante nova denúncia de corrupção contra - a princípio - um de seus integrantes. Ontem, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) recebeu do Clube de Engenharia e Arquitetura (Ceal) da cidade um documento com a denúncia de um cidadão na qual é relatado um suposto caso de enriquecimento ilícito de agente público.
No último dia 16, os promotores do Gaeco denunciaram por crimes de concussão e formação de quadrilha o ex-vereador Henrique Barros (sem partido) e os vereadores Orlando Bonilha (PR), apontado como líder do grupo, além de Renato Araújo (PP), Osvado Bergamin (PMDB) e Flávio Vedoato (PSC). Em depoimento no dia em que foi preso em flagrante com R$ 9,9 mil supostamente oriundos de propina paga por empresários - a fim de que projetos de lei que os beneficiassem fossem acelerados ou não sofressem retaliação na Casa -, Barros, que há uma semana renunciou, delatou os demais nomes. Os quatro, contudo, negam participação em esquemas de arrecadação ilícita.
Ontem, o presidente do Ceal, Nelson Brandão, afirmou que a denúncia chegou à entidade por telefone, na parte da manhã, com detalhes que teriam sido comprovados in loco por membros do clube, antes do repasse das informações ao promotor Leonir Batisti. Brandão não quis divulgar o teor da comunicação, mas garantiu que ela se refere supostamente a um dos quatro vereadores denunciados - uma vez que ele descartou Barros. Conforme o presidente do Ceal, ''o medo é que as investigações do MP sejam prejudicadas''.
Por outro lado, questionado se se tratava novamente de possível crime de concussão - ou seja, uso do cargo público para obtenção de vantagem ilícita -, o engenheiro sinalizou: ''Saímos em busca de conferência daquilo que o denunciante nos passou, e, confesso, receamos até que fosse uma tocaia, porque era um lugar bem afastado, quase inóspito. Mas verificamos que o conteúdo físico do relato é real, verdadeiro, tanto que assim que entregamos a denúncia ao promotor, ele a aceitou'', disse Brandão, para completar: ''Digamos que pode ser uma aplicação fruto de corrupção''.
Indagado se o denunciante seria vítima, Brandão refutou: ''Não. Ele contou ter presenciado como se chegou ao que constatamos hoje (ontem)''. O presidente do Ceal evitou entrar em pormenores, mas, pelo que a reportagem apurou com uma fonte que pediu para não ser identificada, a verificação foi feita na construção de uma mansão no Jardim Pacaembu (Zona Norte) - a qual incluiria até mesmo piscina térmica, a despeito de não ter, entretanto, nenhuma placa de engenheiro responsável pela obra, inacabada.
A FOLHA tentou contato com o promotor que recebeu a denúncia, por mais de uma ocasião, mas ele não atendeu os telefonemas. Hoje, Batisti deve receber do Ceal a análise de duas leis sancionadas ano passado e que, diz Brandão, ''serviram para beneficiar outros três empresários''. Ambas se originam de projetos de lei de autoria do Legislativo - uma prevê alteração no zoneamento dos lotes de uma estância particular; a outra, altera parte do zoneamento da Avenida Abrahan Lincoln - e não tiveram às aprovações, por exemplo, Relatório de Impacto Ambiental Urbano (Riau).
''Elas contêm irregularidades, como apontou estudo da Câmara de Políticas Públicas (grupo de 33 entidades da sociedade civil organizada lideradas pelo Ceal), e seja pelo desrespeito a pareceres técnicos, por parte da Câmara de Vereadores, seja pelo favorecimento a uma determinada pessoa em cada caso, ao invés da coletividade'', declarou o engenheiro.
Para o presidente da Comissão de Ética da Câmara de Vereadores, Roberto Kanashiro (PSDB), eventuais denúncias apresentadas pelo Ceal, contra legisladores, não poderão ser investigadas dentro da representação contra os quatro, em trâmite. ''Se adiante houver problemas mais sérios envolvendo esses vereadores, caberá nova avaliação pela Câmara e pela comissão; agora, não vamos buscar nem anexar nenhuma outra denúncia a essa representação'', resumiu.

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