O trabalho de invetigação do Ministério Público (MP) de Londrina envolvendo a administração pública completou dois anos em fevereiro com uma coleção de números que impressionam. Pelas contas do próprio MP, mais de 400 contas bancárias tiveram o sigilo bancário quebrado. São 118 réus, todos com os bens bloqueados pela Justiça. Entre eles, a vice-governadora Emília Belinati (PTB), os deputados federais José Janene (PPB) e Alex Canziani (PSDB), o deputado estadual Antônio Carlos Belinati (PSL), além do prefeito cassado Belinati.
No total, foram propostas nove ações pelo MP, sendo duas cautelares e sete principais, por improbidade administrativa. Somente as fraudes com licitações envolvem recursos de R$ 16 milhões – mas o valor pode ser bem maior. Além disso, o trabalho da promotoria abasteceu ou contribuiu em investigações dos MPs estadual e federal, polícias Federal e Civil e o Legislativo.
Com o rastreamento do dinheiro desviado de Londrina, o MP também acabou resvalando numa grande ‘‘lavanderia’’ que seria controlada pelo doleiro Alberto Youssef. Em apenas oito meses, de janeiro de 1998 a maio de 1999, passaram por 30 contas fantasmas abertas no Banestado de Londrina – e supostamente controladas por Youssef – cerca de R$ 150 milhões.
Em Maringá, por exemplo, onde é comum fazer comparações entre os trabalhos das duas promotorias, foram anunciadas por enquanto duas ações – uma delas na Justiça comum contra o ex-prefeito Jairo Gianotto (sem partido), o ex-secretário Luis Antônio Paolicchi e três servidores. Outra ação, na Vara Federal, é contra Paolicchi e outros três servidores. Também haveria uma ação criminal contra Gianotto, mas o MP não confirma.
Ao contrário de Maringá, onde cheques da prefeitura eram depositados diretamente na conta de beneficiários da corrupção, em Londrina foi montado um complexo esquema de desvio que envolvia centenas de pessoas, contratos de licitação fraudulentos, contas frias, empresas fantasmas, ‘‘laranjas’’ etc – tudo para dificultar o rastreamento dos recursos, que depois de ‘‘pular’’ em várias contas frias era sacado e desaparecia.
Na conta bancária pessoal do ex-prefeito de Maringá, Jairo Gianotto (sem partido), por exemplo, foram encontrados depósitos de cheques da prefeitura. Em Londrina não teve um só beneficiário que recebeu dinheiro público diretamente em conta bancária pessoal ou comprou bens com recursos da prefeitura.
‘‘A sistemática de apropriação estabeleceu camadas para que os verdadeiros beneficiários fossem acobertados. Sem dúvida é uma organização criminosa com parte dessa quadrilha agindo com cargos para facilitar a abstração de recursos públicos’’, definiu o promotor Cláudio Esteves, responsável pelas investigações em Londrina junto com os colegas Bruno Galatti e Solange Vicentin.
Para ele, o fato dos acusados estarem com os bens bloqueados pela Justiça é uma garantia de que os cofres públicos poderão ser ressarcidos, pelo menos em parte. Esteves comentou que a forma como ocorreram os desvios nas prefeituras de Londrina e Maringá impossibilita qualquer tipo de comparação. ‘‘Existem pessoas que tentam denegrir a imagem do MP, tanto daqui quanto de Maringá, fazendo esse tipo de comparação. São situações distintas.’’

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