O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) está apurando denúncias de irregularidades administrativas na Autarquia Municipal de Serviços Funerários (Acesf) relacionadas à venda forçada de um serviço de conservação de cadáveres chamado tanatopraxia em troca do pagamento de vantagens financeiras para servidores públicos. A tanatopraxia é indicada para sepultamentos ocorridos com grande espaço de tempo após a morte e, em Londrina, é realizada por empresas particulares. A denúncia foi levada até a promotoria pela imprensa e funcionários do Instituto Médico Legal (IML) já confirmaram as irregularidades. As investigações realizadas até agora indicam a existência dos crimes de concussão ou estelionato.
O Gaeco já ouviu familiares de mortos que confirmaram ter sido coagidos por funcionários da Acesf para comprar o serviço. A pressão se dava mediante a atemorização de que sem a tanatopraxia os corpos poderiam exalar mau cheiro e líquidos ou sofrer alteração excessiva de cor durante o velório. Em alguns casos, os servidores chegaram a ameaçar lacrar o caixão ou antecipar o sepultamento para forçar a venda. A tanatopraxia custa entre R$ 1.200 e R$ 1.800 - o valor varia de acordo com o estado do corpo e a extensão do serviço.
O ex-funcionário de uma empresa que comercializa o serviço contou ao Gaeco que servidores, padrinhos políticos de funcionários comissionados e diretores do órgão recebem aproximadamente R$ 400 para cada corpo enviado para a tanatopraxia. O denunciante disse ainda à promotoria que vinha recebendo ameaças de pessoas envolvidas no esquema. ''Ou (você) fecha a boca ou fechamos pra você'', relatou ter ouvido durante ligação telefônica anônima. O ex-funcionário contou também que ele próprio repassou dinheiro para os funcionários da Acesf em diversas oportunidades.
O promotor Renato de Lima Castro afirmou que as investigações já podem comprovar que ''há crime contra a administração pública sem qualquer dúvida''.''Existe um esquema instalado por alguns funcionários para beneficiar uma empresa e servidores públicos que participam do fato'', disse.
O promotor convocou pela FOLHA outros familiares que passaram pelo mesmo tipo de assédio na Acesf a comparecer ao Gaeco para reforçar o procedimento investigatório. ''A situação é bastante desumana porque se percebe que há pessoas que são cruéis para benefício próprio e de terceiros. No momento em que se aproveitam do momento de dor dos familiares do falecido e exigem a realização de um exame de alto custo, se percebe que o valor do dinheiro (para elas) é muito significativo.'' De acordo com Lima Castro, algumas famílias eram de baixa renda. ''Temos um caso em que o serviço foi pago com cheques pré-datatos. Isso é muito triste, mas com certeza nós vamos desbaratar este quadro caótico.''

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