O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) começou ontem outra linha de investigação em direção à Câmara de Londrina - desta vez, fora do âmbito dos projetos de lei e de eventuais interesses envolvidos nas tramitações deles. O que está sob análise agora são indícios de contratação de funcionários-fantasmas lotados para exercerem função de assessoria, mas sem a comprovação de que o serviço de fato está sendo realizado. Um desses casos é o de uma assessora comunitária nomeada pelo gabinete do vereador afastado Osvaldo Bergamin (PMDB), mas que, conforme o que já detém o Gaeco, realiza praticamente durante todo o dia serviços de manicure e cabeleireira em um salão montado em sua residência, no Jardim Santa Rita 4 (Zona Oeste).
De acordo com o coordenador do Gaeco, promotor Cláudio Esteves, a denúncia chegou há duas semanas no curso de outras investigações sobre a Câmara. A partir dali, no último dia 19 ele encaminhou ofício ao presidente da Câmara, Sidney de Souza (PTB), requisitando os nomes de todos os assessores e os respectivos códigos de remuneração dos afastados Bergamin, Renato Araújo (PP), Vedoato e do ex-vereador Orlando Bonilha (PR). O documento foi respondido no dia 24.
Segundo Esteves, uma denúncia anônima teria chegado especificamente sobre o caso da assessora parlamentar Vanderléia Faria da Mota, do gabinete de Bergamin, esposa do assessor parlamentar comunitário Sérgio Sampaio da Mota, nomeado no mesmo local. ''Irregularidades que porventura sejam apuradas podem envolver tanto quem contrata quanto quem é contratado, mas ainda é prematuro dizer'', definiu o promotor, que completou: ''Mas se há situações irregulares como a que poderia estar ocorrendo, eventualmente caracterizadora de ato de improbidade e até de crime, tem que ser investigado''.
Esteves também não quis entrar na polêmica sobre a necssidade de assessores parlamentares darem expediente dentro ou fora do prédio do Legislativo, mas sinalizou: ''Dependendo do tipo de atividade que exerce esse funcionário, cada agente público, cada servidor precisa trabalhar no local onde é contratado, ou outro ponto, mas precisa trabalhar - precisamos ver se isso está sendo a favor do serviço público, ou não''.
Em uma gravação feita por uma equipe de reportagem, e acompanhada por outros veículos, a repórter tentou marcar horários de manicure, pedicure, corte de cabelo e escova com Vanderléia. Após verificar os horários da agenda da profissional, já que a assessora disse ser difícil ter disponibilidade - ''trabalho a semana inteira, de terça a sábado, o duro é o horário, tem que marcar'' - foi possível agendar manicure, pedicure e cabelo na terça e quinta-feiras da próxima semana: de propósito, dias e horários das sessões ordinárias.
Na casa-salão, no final da tarde, Vanderléia não soube dizer o horário que cumpre na Câmara. Alegou que é assessora comunitária, ganha cerca de R$ 1 mil/mês entre salário e abono de R$ 500 e que combinou fazer o que ela avalia como ''bico'', no salão, com Bergamin, com quem trabalha há seis meses.
''Meu serviço (de assessora) é esse: quando aparece trabalho aqui na comunidade, levo lá para ele (vereador). Não é diariamente, se precisar diariamente estou lá, se não, não'', declarou. Indagada como consegue conciliar dois trabalhos que aparentemente consomem tempo, disse: ''Concilio, ué. Não trabalho nas sessões, mas minha prioridade é a Câmara''. Em seguida, citou que faz ''umas seis, 8 horas na Câmara - mas mostrando meu serviço, basta''.
Ao ser informada que é investigada pelo Gaeco como suposta funcionária-fantasma, o marido da assessora, ao lado dela, foi enigmático: ''Vocês estão no lugar errado; ela é autônoma''. Nisso, ela complementou: ''Lógico que essa é uma prática comum ali dentro (da Câmara), tem mais gente nessa situação, é só procurar que tem''.
Bergamin defendeu a assessora. ''Ela ouve as necessidades da comunidade, faz 24 horas de política - a vida particular cada um faz o que bem entende, assessor não precisa marcar ponto'', acredita.

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