A suposta divisão de salários que é alvo de investigação em Londrina contra um vereador - Paulo Arildo (PSDB) - e um ex-vereador - Orlando Bonilha (PR) - ronda agora a Câmara Municipal de Cambé. Semana passada, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) encaminhou à Promotoria da cidade vizinha o procedimento que vinha sendo conduzido desde dezembro, e no qual cinco ex-assessores admitiram ter repassado entre 30% e 50% de salários então na casa de R$ 700 e R$ 1.500 a dois parlamentares em troca da manutenção nos cargos. Atualmente, os dez vereadores de Cambé (com remuneração bruta mensal cada de R$ R$ 3.816 para uma sessão semanal) têm direito a três assessores por gabinete: dois de R$ 1.636 cada e um de R$ 1.091.
Segundo informações do Gaeco, a investigação teria iniciado a partir do depoimento espontâneo dos ex-assessores, cujas identidades foram preservadas. A medida ensejou abertura de procedimento nas esferas administrativa e criminal. Esta última foi encaminhada semana passada à promotora Cláudia Lino, de Cambé, que também instaurou procedimento, mas decretou segredo de Justiça no caso. Entretanto, a reportagem apurou que estão sob investigação os vereadores Almiro de Vasconcelos Uchoa (PPS) e Alencar Diniz da Silva (PP).
Nos depoimentos, os ex-assessores relataram ser ''prática comum'' a divisão de salários. Uma das depoentes disse que começou a trabalhar com Silva em 2003 como assessora de gabinete, com atendimento à população, e que após um período fora indicada por ele a assessorar o gabinete de dois ex-presidentes da Casa. Durante todo esse tempo, teria de dividir parte do vencimento com o ''padrinho'' político: dos R$ 910 que recebia, à época, ficaria efetivamente com R$ 300. O pagamento seria feito ao próprio vereador ou à filha dele, sempre após saques bancários. Em entrevista gravada, a ex-assessora garantiu que uma sobrinha do vereador, empregada no gabinete e que acabou depondo, também dividiria salário, e na mesma proporção que ela - e que ambas pediram exoneração em dezembro de 2006. O teor dessa conversa, inclusive, teria sido gravado e entregue ao Gaeco.
Por meio da assessoria de imprensa, o presidente da Câmara, Luiz Guizilini (DEM), informou que só se manifestará ''quando a Casa souber oficialmente, e não apenas pela imprensa, o que está ocorrendo''. Mesmo assim, a assessoria admitiu ter entregue ontem ao MP, conforme solicitado, uma lista com toda a relação de pessoal contratado e exonerado desde janeiro de 2004.
A FOLHA tentou contato com Uchoa, mas uma uma assessora alegou que ele estaria em cirurgia e retornaria a ligação ''mais tarde'' - o que não aconteceu. O advogado de Silva, Paulo Sérgio Mecchi, afirmou que as acusações contra o cliente ''são inverdades, tanto que temos provas documentais e testemunhais elencadas na defesa que já apresentamos'', justificou Mecchi. ''Isso vem à tona em ano eleitoral: é perseguição política.''
A promotora de Cambé argumentou que o sigilo foi necessário ''porque estamos em ano eleitoral, e para não prejudicar as investigações''. Por outro lado, confirmou que os acusados tiveram acesso aos autos antes de o segredo ser decretado. 'É sigilo para terceiros; cada promotor adota o procedimento que achar melhor. De qualquer forma, se houver eventual coação a testemunhas, isso trará consequências legais aos envolvidos'', avisou.

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