O Ministério Público e a Polícia Federal irão investigar a denúncia de que o presidente Fernando Henrique Cardoso teria uma empresa em paraíso fiscal e a notícia de grampo telefônico no Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). A decisão de transferir as investigações da esfera estrita da Subsecretaria de Inteligência da Presidência para Justiça foi anunciada ontem pelo ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, sob o argumento de que se trata de ‘‘caso de polícia e não questão de Estado’’. Ele admitiu que a subsecretaria não conseguiu avançar nas investigações. E negou que a decisão tenha sido tomada em razão da pressão do Congresso e da opinião pública. ‘‘A decisão (de remeter ao Ministério Público) não foi tomada de uma hora para outras, já vinham em fase final de investigação.’
O general Cardoso disse que, tanto o dossiê que sugere que o presidente e outros três tucanos têm uma conta com US$ 368 milhões nas Ilhas Cayman, quanto as duas fitas obtidas por meio de escuta clandestina no telefone do BNDES, não trazem risco nem à figura do presidente. ‘‘Se se caracterizasse uma questão de Estado, a subsecretaria de Inteligência continuaria à testa das investigações com a ajuda da Polícia Federal, mas certamente o Ministério Público avocaria para si parte das investigações’’, afirmou. ‘‘Estamos convictos de que não se trata de uma questão de Estado.’
O general desestimulou uma apuração pelo Congresso. ‘‘Quanto ao Congresso, é uma questão política: se há interesse em desviar a atenção para estes documentos, o que é uma coisa inócua’’, argumentou em entrevista concedida à imprensa. Mais tarde, o general voltou a chamar a imprensa para explicar que o que considerava inócua era a sua convocação para dar explicações sobre o dossiê Cayman ao Congresso. ‘‘Há uma alta probabilidade de estes documentos serem falsos’’, justificou.
Para o ministro, não há qualquer conexão entre as duas denúncias. Cardoso voltou a afirmar que considera ‘‘muito difícil’’ se chegar ao chantageador que elaborou o dossiê Cayman. ‘‘Essas pessoas não deixam rastro, não há uma linha lógica’’, ponderou. O general confirmou que os documentos do dossiê foram trazidos ao presidente pelo ministro da Saúde, José Serra, no dia 6 de outubro.
De acordo com Cardoso, a primeira impressão - ‘‘de que se tratava de história com objetivo de chantagear’’ - foi confirmada nos estudos feitos pela subsecretaria. Ele informou que para a investigação, foram contratadas consultorias especializadas na área de finanças e bancos. O ministro informou ainda que foi contratada uma consultoria internacional para verificar a veracidade da existência da empresa nas Ilhas Caymam.
‘‘Há erros grosseiros’’, sustentou o general, comentando que as consultorias especializadas também chegaram à mesma conclusão. ‘‘Foi feita uma armação, uma montagem para fins de chantagem.’ O ministro Cardoso disse, entretanto, que todas as investigações foram baseadas em cópias xerox dos fac-símiles recebidos pelo ministro Serra. ‘‘Isso dificultou muito o trabalho.’
Ontem, Cardoso esteve com o presidente Fernando Henrique no Palácio da Alvorada. Segundo o ministro, a decisão de acionar a Polícia Federal e remeter os dossiê e o resultado das investigações ao Ministério Público foi tomada ontem por Fernando Henrique, com a assessoria dele e da área jurídica do Planalto.‘‘A investigação não parou antes.’

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