São Paulo - A viagem do dinheiro dos contribuintes da Igreja Universal do Reino de Deus, em aviões particulares e com um aparato particular de segurança, que inclui a participação de policiais militares, confirma o elevado grau de centralização que alguns estudiosos já tinham observado no funcionamento da organização religiosa. Embora espalhada por 7.500 templos no território brasileiro e filiais em outros 80 países, ela é rigidamente controlada por uma cabeça, localizada em São Paulo o destino do dinheiro apreendido pela Polícia Federal, após ter passado por Manaus e Belém.
A centralização administrativa, na avaliação do sociólogo Ricardo Mariano, coordenador do programa de pós-graduação em ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e um dos mais respeitados estudiosos do avanço neopentecostal no País, é que permite à Universal fazer investimentos de grande porte. Tais como a compra da ''TV Record'', por US$ 45 milhões, em 1989; a montagem de uma cadeia nacional de emissoras de rádio, cuja ação prepara a chegada dos pastores às cidades do interior ou bairros das cidades grandes; e a construção de catedrais monumentais, como a do bairro Del Castilho, na zona norte do Rio.
''Nenhum pastor tem autonomia na aplicação dos recursos coletados'', observa o sociólogo. ''A Universal opera com o modelo eclesiástico episcopal, que é vertical e sem qualquer espaço democrático.''
A quantia de R$ 10,2 milhões, distribuída nas sete malas apreendidas em Brasília, impressiona, mas é pequena diante dos valores manipulados pela administração central que tem o bispo primaz Edir Macedo no topo e, abaixo dele, o conselho de bispos. Pelas declarações feitas ao Fisco há cinco anos, a movimentação anual chegava a R$ 2 bilhões. Estima-se que neste ano passe de R$ 3 bilhões.
''O sistema de arrecadação do dízimo e de doações funciona de maneira muito eficiente'', afirma Mariano. ''Há um esforço notável para convencer o fiel a fazer doações com amor, alegria e desprendimento.'' O sistema sustenta-se na Teologia da Prosperidade, segundo a qual Deus pôs ao alcance do homem todas as bênçãos que tinha retirado na ocasião da expulsão do paraíso. Tais como a prosperidade material, a saúde, a felicidade, a vitória nos empreendimentos materiais e, sobretudo, a vitória contra o demônio.
Cabe aos homens de plena fé tomarem posse dessas bênçãos. ''Eles conseguirão se forem fiéis a Deus, não de maneira abstrata, mas com ações e ajudando a realizar a principal obra divina na terra, que é a evangelização'', explica Mariano. ''Podem ajudar de forma direta, como pastores, pregadores, ou viabilizando a evangelização, com ofertas feitas de maneira desprendida.''
São ofertas que vão além do dízimo que, segundo o ensinamento da Universal é um mandamento da Bíblia. ''Quem não pagar os 10% do que ganha estará roubando de Deus. Quem pagar garantirá um pedaço do céu aqui na terra, resolvendo problemas amorosos, conjugais, físicos e sobretudo materiais. Se não conseguir carro novo, um bom emprego, a reforma na casa, a culpa não é da igreja, mas do fiel, que duvidou de Deus e sucumbiu ao demônio.''

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