O ministro das Comunicações, Sérgio Motta, disse ontem que não se considera denunciado no escândalo da compra de votos pró-reeleição. Ele é citado nas fitas gravadas como um dos intermediadores da negociata envolvendo cinco deputados do Acre.
Motta depôs durante quatro horas e meia na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara e admitiu ter recebido o deputado João Maia (AC) em seu gabinete cinco dias antes da votação da emenda da reeleição em primeiro turno na Câmara, em 28 de janeiro. Mas garantiu que as audiências, com mais de 2.015 deputados, nunca ultrapassaram o ‘‘terreno da política’’. Os deputados Ronivon Santiago e João Maia confessaram ter vendido seus votos por R$ 200 mil e renunciaram ao mandato depois de serem expulsos do PFL.
O ministro reconheceu a veracidade da fita com a gravação da conversa - chamada de ‘‘cafajeste’’ - de Maia e Santiago, na qual os dois confessam ter negociado seus votos. ‘‘Acho que as gravações que expressam a conversa dos dois desclassificados é verdadeira, caracteriza corrupção, compra e venda de votos’’, disse Motta, lamentando que ambos tenham fugido ‘‘pelo caminho fácil da renúncia’’.
‘‘Assumo meu papel de ministro político, que batalhou pela reeleição, mas nunca tive uma conversa que superasse o terreno da política’’, disse esclarecendo ter recebido Maia apenas uma vez. ‘‘Conversamos sozinhos sobre a BR-364 (estrada que liga o Acre a Rondônia)’, afirmou, para estranheza das oposições. ‘‘Sou um cara profundamente informado sobre o governo e sempre trabalhei no meu estilo, com o apoio do presidente Fernando Henrique Cardoso.’
‘‘Não sou denunciado como eles’’, argumentou Motta, ressaltando que não partilha da mesma condição dos dois, ao defender a tese de que há várias ‘‘gradações’’ entre os implicados no caso. A seu ver, os outros três parlamentares acreanos sob risco de cassação - Zila Bezerra (PFL) Osmir Lima (PFL) e Chicão Brígido (PMDB), foram apenas citados. Ele leu vários trechos transcritos da gravação em que seu nome foi mencionado ‘‘de forma totalmente irresponsável’’, como a pessoa que teria dado o dinheiro usado na compra dos votos.
‘‘O dinheiro é do Serjão, parece, sei lᒒ, leu o ministro, para concluir: ‘‘Isso é uma palhaçada, uma brincadeira, não me sinto acusado e não sei como a Câmara se preocupa com isto’’. Sérgio Motta disse que se houvesse uma denúncia concreta e efetiva seria o primeiro a se afastar. ‘‘Não sou candidato a nada e meu relacionamento com o presidente supera o político’’, justificou.
Além de João Maia, o ministro teve contato com outros implicados no escândalo, praticamente às vésperas da votação. O deputado Osmir Lima (PFL-AC) esteve no Ministério das Comunicações dia 20 de fevereiro, cinco dias antes da votação do segundo turno. Na mesma época, ainda segundo relato do ministro à comissão, também estiveram em seu gabinete o governador Orleir Cameli (sem partido) e toda a bancada acreana, todos pedindo a conclusão da rodovia 364, que estava no orçamento.
‘‘Passei tudo para o ministro dos Transportes, assim como fiz quando atendi meu amigo governador Miguel Arraes (PE), que encaminhei ao presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)’, disse Motta. ‘‘Arraes também me pediu ajuda porque estava estrepado no Estado e eu atendo todo mundo mesmo.’ A referência ao governador do PSB provocou risos dos aliados.
‘‘O depoimento levantou mais coincidências, como as audiências aos acusados às vésperas da votação, mas não esclareceu nada’’, avaliou ao final o deputado José Genoíno (PT-SP), em defesa de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso. A estratégia das oposições ontem foi desqualificar a CCJ como fórum adequado para investigar as denúncias.
Foi assim nos depoimentos do líder do governo, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), e dos deputados Pauderney Avelino (PFL-AM) e Célia Mendes (PFL-AC), também ouvidos ontem pela CCJ. O depoimento de Luís Eduardo foi rápido, de uns dez minutos. Ele recusou o tratamento de intermediário e afirmou que ‘‘jamais permitiria que alguém tivesse a ousadia’’ de lhe ‘‘pedir uma audiência com este propósito’’, referindo-se à venda de voto.
Logo na abertura da sessão o bloco das oposições provocou quase meia hora de tumulto e discussão ao divulgar uma nota de protesto contra a ‘‘manobra dos governistas’’. O bloco acusou os aliados de tentar transformar a CCJ no palco para o ‘‘depoimento espetáculo’’ do ministro, com o objetivo de garantir-lhe absolvição antecipada, livrando-o de uma CPI.
Motta fez a defesa da CCJ, mas se dispôs a depor em qualquer fórum, incluindo uma CPI. Argumentou apenas que a CCJ tem seus instrumentos de investigação e que os resultados podem ser encaminhados à Procuradoria-Geral da República, ao Ministério Público e à Polícia Federal, para que sejam tomadas as medidas judiciais necessárias. ‘‘Depois de todas estas etapas, se for preciso eu estou pronto a abrir todas as coisas da minha vida’’, disse admitindo abrir o sigilo de suas ligações telefônicas.
Amanhã será a vez dos depoimentos dos governadores Orleir Cameli (AC) e Amazonino Mendes (PFL-AM), citados nas gravações como corruptores.

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