Curitiba – O juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, e que conduz os processos da Operação Lava Jato, criticou declarações da presidente da República, Dilma Roussef, ressaltando que não respeita delatores, inclusive os comparando aos "dedos-duros" que depunham sob tortura na ditadura. A tentativa de desqualificação dos depoimentos dos colaboradores criminosos também é a principal munição utilizada por defensores dos executivos das empreiteiras Andrade Gutierrez e Odebrecht, que seguem presos na carceragem da Polícia Federal (PF) em Curitiba.
Num ofício encaminhado ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) na última quarta-feira, em que justifica a necessidade de manutenção da prisão preventiva do presidente da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht, o magistrado não cita a presidente, mas destaca que são ofensivas ao Supremo Tribunal Federal (STF), que homologou a maior parte das delações premiadas, as comparações feitas entre "prisão cautelar" e "tortura" e "criminosos colaboradores" e "traidores da pátria".
Tal manifestação aparece em trecho do despacho em que ele repudia as afirmações dos defensores da empreiteira, de que a prisão se faz para obter confissão. Moro afirmou que este posicionamento não passa de argumento retórico da defesa e que é inconsistente com a realidade do processo.
"Mesmo juízo de inconsistência cabe às equiparações inapropriadas entre ‘prisão cautelar’ e ‘tortura’ ou entre ‘criminosos colaboradores’ e ‘traidores da pátria’. Não há como este Juízo ou qualquer Corte de Justiça considerar argumentos da espécie com seriedade. São eles, aliás, ofensivos ao Egrégio Supremo Tribunal Federal que homologou os principais acordos de colaboração, certificando-se previamente da validade dos pactos e da voluntariedade dos colaboradores", ressaltou no documento.
Moro também ressaltou que é inconsistente a crítica feita ao suposto número elevado de criminosos colaboradores. Até o momento são 18 acordos de colaboração fechados com o Ministério Público Federal (MPF). "Na Operação Lava Jato, não se tem por objeto um crime único, isolado no tempo e espaço, mas, infelizmente, segundo as provas, em cognição sumária, já colhidas, um esquema criminoso prolongado e persistente, ilustrado por prejuízos já reconhecidos pela Petrobras de mais de R$ 6 bilhões. Diante da dimensão dos fatos, o número de criminosos colaboradores é, em realidade, pouco expressivo, sendo provavelmente explicado pela crença equivocada na omertà (palavra italiana que significa conspiração) e na impunidade."

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