Mito getulista resiste aos 50 anos de sua morte
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sábado, 21 de agosto de 2004
Carlos Marchi<br> Agência Estado 
São Paulo - Cinquenta anos depois de sua morte, os historiadores tendem a interpretar que Getúlio Vargas não foi propriamente o idealizador da modernização da economia entre os anos 30 e 50, mas apenas teve percepção de um processo que já estava em curso, facilitando e acelerando sua implementação. Da mesma forma, a formulação de toda a legislação trabalhista, que durante anos foi apontada como a razão da idolatria popular a Getúlio, ganha nova visão a de que era necessária não exatamente para melhorar a vida das pessoas, mas para organizar e estruturar o mercado interno que adviria da modernização, além de preparar as bases políticas para o futuro do mito getulista.
A interpretação do período getulista foi inibida durante muito tempo pela intensidade das paixões e pressões ideológicas. Mas hoje é possível entender que o homem que comandou a cena política nos anos 30, que apaixonou e mobilizou multidões, incensado e admirado nos 15 anos como ditador, teve imensa dificuldade em lidar com o complexo sistema de pressões e contrapressões da democracia representativa. E seus três anos de governo democrático foram uma crise só, aguda e interminável.
Getúlio sabia mandar como ninguém, mas tinha notórias dificuldades em negociar com opositores. Com todas as ressalvas, a visão contemporânea dos historiadores ainda o situa como o mais importante e influente político brasileiro do século 20, não só por ter sido o homem que mais tempo comandou o poder na era republicana, mas também porque foi o único que governou primeiro como ditador e depois como líder popular eleito, adorado por dois terços do povo e odiado pelo resto.
As explicações para a origem do mito getulista sempre fixaram duas referências: a modernização da economia e os benefícios sociais que o governo ditatorial deu aos 41 milhões de brasileiros que existiam em 1940. Cada vez mais os historiadores explicam o nascimento do mito com o papel do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que a partir de 39 fez a cabeça de uma geração inteira com campanhas convincentes e massivas, realçando o papel de Vargas como criador de um processo que ele apenas facilitou.
''Foi o DIP que criou o mito'', defende a respeitada cientista política Maria Celina D'Araujo, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas. A modernização da economia era um processo em marcha e uma demanda natural do País; viria, diz ela, com Getúlio ou sem ele. O brasilianista Robert Levine nega sinceridade na preocupação social de Getúlio, lembrando que ele nunca moveu uma palha para melhorar a distribuição de renda, crítica entre os anos 30 e 50.
A legislação trabalhista, apontada como o grande legado do ex-presidente, já vinha colecionando contribuições (como o princípio da aposentadoria, aprovado em 1923, na Lei Elói Chaves), aponta Celina, que, com Alzira Vargas, a filha do ex-presidente, organizou a extensa documentação de Getúlio. Os que por razões políticas ainda o seguem e os que, movidos pelas mesmas paixões, ainda o odeiam, um e outro lado rejeitam essa conclusão. Mas o mito de Getúlio persiste vivo 50 anos depois, e não passa uma eleição sem que seu nome seja evocado por algum candidato.
Ter sido ditador e depois chegar ao palácio nos braços do povo foi uma ambivalência que esse pragmático personagem da política brasileira tinha aprendido a praticar desde bem cedo. Em novembro de 1930 desembarcou no Rio como líder de uma revolução que projetava mudar a face do País; nos meses anteriores, no entanto, tinha feito o possível para deter o fermento revolucionário, buscando obsessivamente a opção da negociação com o governo Washington Luiz, do qual tinha sido poderoso ministro da Fazenda menos de três anos antes. Mais que um fenômeno político, bem mais que um político autoritário, Getúlio foi antes de tudo um pragmático da melhor estirpe.
Nos registros escritos, Getúlio sempre distribuiu à sua volta culpas por eventuais fracassos, que nunca eram seus. Aí nasce o futuro pai dos pobres: o chefe do Estado não precisa negociar com os cidadãos, tem apenas de premiá-los com benefícios, pelos quais eles devem ficar muito agradecidos.
Getúlio forjou inimigos para alongar seu poder. Depois do levante paulista de 32, aceitou a idéia de uma Constituição, mas convenceu os deputados de que seu sucessor deveria ser eleito por via indireta e deveria ser ele mesmo. Em 1935 estigmatizou os comunistas e dois anos depois fez o mesmo com o outro lado do espectro, os integralistas. A eleição presidencial seria em janeiro de 38, mas desde fins de 36 ele já preparava, com o jurista Francisco Campos, o texto de uma Constituição autoritária (que outorgaria em novembro de 37, proibindo os partidos, suspendendo as eleições diretas e proclamando-se ditador). Em fins de 1938, 60% do que os jornais publicavam vinha do DIP, conta Levine.
Enquanto seu poder foi incontestável, parecia insuperável no comando do País. Nada o ameaçou, ninguém lhe fez sombra. Mas quando voltou ao poder nos braços do povo e teve de repartir o mando com o Congresso aberto e uma oposição franca, encontrou enormes dificuldades, que não conseguiu, nem sequer, amenizar.
Já não podia governar por decreto e a obrigatória convivência com o sistema democrático representativo não lhe foi fácil, talvez porque toda a sua cultura política, contaminada pelo autoritarismo, conhecesse apenas as formas brutas de tratar as oposições, e ignorasse a palavra negociação.


