Curitiba - ‘‘Não temos um quadro clássico de partidos políticos atuando de maneira organizada. Temos muito mais lideranças.’’ A explicação do cientista político, o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ricardo Oliveira, refere-se ao fato de boa parte dos políticos paranaenses hoje atuarem muito mais em interesse próprio do que de acordo com a linha política e ideológica de seus partidos.
  A Assembléia Legislativa do Estado é um exemplo disto. A bancada de deputados estaduais que apóia o governador Roberto Requião (PMDB) é composta por parlamentares que estão em partidos da esquerda e também os de direita. Não há homogeneidade, mas sim atuação de acordo com o interesse político pessoal e também da base eleitoral.
  Segundo Oliveira, na atual legislatura dos deputados estaduais paranaenses, a demarcação é a posição dos parlamentares em relação ao governo Requião. Tanto que na Assembléia é comum ver desde membros do PT e do PFL votando de acordo com os interesses do governador do Estado. Para o cientista político, essa mistura partidária é uma característica do Paraná porque Requião tem o hábito de criar vínculos individuais com os parlamentares, independente de partidos.
  Apesar de parecer incoerência ir contra a ideologia do partido, Oliveira explica que isso é a cultura do Brasil e que tem um lado importante que é evitar a inflexibilidade. ‘‘O rigor poderia levar a atrofia da Assembléia.’’
  Na última votação polêmica, e nominal, que aconteceu na Assembléia, que foi em relação a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) contra o nepotismo, essa divisão ficou clara. Em protesto, a bancada do governo não compareceu à primeira sessão da votação do projeto. E dos que não foram, além de parlamentares do PMDB, faltaram do PTB, PP, PL, um deputado do PT e também dos partidos oposicionistas PSDB e PFL. Já na votação propriamente deixaram de votar membros do PMDB, PT e do PTB. ‘‘O PTB é tradicionalmente dividido, sem coerência e unidade. O PSDB está tendo uma relação de aproximação com o Requião. Tanto que vem despertando críticas do PFL, que sempre foi seu parceiro na oposição’’, explicou Oliveria.
  ‘‘O sistema político que vivemos obriga o deputado a fazer algumas concessões ao Executivo’’, ponderou o deputado José Maria Ferreira (PMDB). Para ele, a melhor solução seria que o orçamento do Estado, que todos os anos é aprovado pela Assembléia, fosse uma lei impositiva. ‘‘Hoje apenas autorizamos e o Executivo cumpre se der. Quando tivermos uma lei impositiva, os deputados vão apresentar emendas coerentes que beneficiem a sua base’’, afirmou o deputado. Isto, portanto, acabaria com a relação de ‘‘troca’’ que existe entre os poderes hoje, já que muitos deputados apóiam o governo do Estado em troca da liberação de verbas (emendas) para seus projetos.
  A principal oposição dentro da Assembléia, segundo Oliveira, é do PFL. Entretanto, mesmo assim é comum que o deputado Nelson Justus (PFL) vote com o governo. ‘‘Eu sempre procurei manter certa independência. Eu voto de acordo com a minha consciência’’, explicou Justus. ‘‘Meu partido tem me dado liberdade para votar. Eu nunca escondi que tenho amizade com o governador’’, completou o deputado que já foi duas vezes secretário de Estado no governo Jaime Lerner (PSB). Justus apresentou na semana passada uma PEC propondo o fim do voto secreto na Assembléia.
  O PT teve papel fundamental na eleição de Requião em 2002. Porém, um dos maiores oposicionistas ao governo do Estado é o presidente do partido no Paraná, deputado André Vargas. O deputado considera que também possui uma postura independente e que nas votações mais importantes, que envolvem questões administrativas, vota com o governo.
  ‘‘O Requião ainda exerce influência sobre alguns deputados do PT. Mas nas questões políticas, o partido se posiciona independente do governador’’, explicou Vargas. ‘‘O problema é que no Paraná qualquer um que dê opinião parece oposição porque o governador é autoritário. Ele exige da base não só o voto, mas subserviência’’, alfinetou.

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