Agência O Globo
De Brasília
Sempre à sombra do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o novo ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, terá que driblar resistências para levar seu trabalho adiante. Clóvis colecionou, ao longo dos quase cinco anos dedicados à Casa Civil, desafetos não só no Congresso, mas especialmente na Esplanada dos Ministérios.
Homem de confiança de Fernando Henrique, o ministro cultivou ressentimentos ao tomar decisões desfavoráveis a colegas de Esplanada ou ao postergar projetos. Apesar disso, essa fidelidade ao presidente é hoje o seu maior trunfo, criando as melhores expectativas no empresariado.
O próprio ministro sabe que sofre restrições entre os políticos. Na base, a idéia de que Clóvis engavetava projetos e impunha obstáculos a nomeações de indicados é quase unânime. E, prevendo certas dificuldades, ele se antecipa: ‘‘O importante não é com quem o Congresso vai negociar, mas sim o conteúdo a ser discutido’’.
Clóvis alega que nunca teve poder de nomear ninguém no governo. Segundo ele, os documentos para serem assinados pelo presidente eram levados pelo ex-secretário de Relações Institucionais Eduardo Graef. ‘‘Diziam que eu segurava projetos. Mas meu papel era o de encaminhar tudo, ouvir todos os órgãos envolvidos, buscar consenso e evitar erros jurídicos e constitucionais. Às vezes, um documento era enviado na última hora para o presidente assinar. Essa era a razão dos erros que levamos o presidente a cometer. E acho que eram poucos’’, alega.
À frente da Casa Civil, Clóvis acabou contrariando ministros, como José Serra (Saúde). Ele e Clóvis deixaram de se falar depois de uma dura troca de correspondências. Segundo colegas de partido, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) foi uma das principais causas da briga. Serra queria transferir a Susep para o Ministério da Saúde. E ficou irritado ao saber que a decisão de Clóvis foi manter o órgão sob o comando da Fazenda.
Capaz de devolver mais de dez vezes um projeto ao seu ministério de origem - como aconteceu com a proposta de criação da Agência Nacional dos Transportes (ANT) - Clóvis também incomodou ao levar para seu controle a Câmara de Comércio Exterior (Camex). O órgão, hoje subordinado ao Desenvolvimento, foi disputado pela Fazenda, pela Agricultura e por seu antecessor, Celso Lafer.
Recentemente, ele submeteu o ministro do Esporte e Turismo, Rafael Grecca, a uma situação constrangedora. Grecca chegou a anunciar a mudança do nome do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp) para Esporte Brasil. Mas a idéia nunca saiu do papel. ‘‘Não conheço quem goste dele no Congresso’’, diz um parlamentar, que prefere manter o anonimato.
Por tudo isso é que sua tarefa é apontada como um desafio. Líder do partido de Clóvis, o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) reconhece que o ministro terá agora a missão de construir um novo relacionamento com o Congresso e com o meio empresarial: ‘‘O ministro terá que estreitar laços tanto no meio político quanto na sociedade’’.
Politicamente, Clóvis terá de se mostrar mais. Líder do PMDB na Câmara, o deputado Geddel Vieira Lima (MG) admite mal conhecer o ministro: ‘‘Nunca tive muito contato com ele. No Congresso, dizem que contrariava os parlamentares’’.

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