O ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, denunciou ontem a existência de uma quadrilha especializada em espionagem industrial que atua no Rio de Janeiro, usando as centrais telefônicas da Telerj. Esta quadrilha poderia estar, segundo ele, grampeando ligações de órgãos do governo, como o Banco Central e a Petrobrás, que também lidam com informações estratégicas. ‘‘Se acontece com o BNDES, por que não poderia estar acontecendo com a Petrobrás, que tem concorrência do mesmo tipo, e o Banco Central, que tem informações privilegiadas’’, questionou o ministro.
Segundo ele, as fitas gravadas com conversas feitas no período do leilão de privatização da Telebrás, a partir de ligações do gabinete do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), André Lara Resende, comprovam esta denúncia. ‘‘Pode-se imaginar quanto vale uma informação obtida às vésperas do leilão’’, disse.
‘‘Dizem que tem fita até da época do leilão da Vale do Rio Doce’’, afirmou Mendonça de Barros. ‘‘Pelo visto era uma coisa institucionalizada, uma indústria’’, disse. O objetivo da quadrilha, no entender do ministro, era ter informações privilegiadas às vésperas da privatização. ‘‘Em todo o leilão, o BNDES é um centro de conversas para todos os interessados’’, explicou. Alguns consórcios que atuaram naquele privatização, lembrou, foram fechados às 6 horas da manhã do dia do leilão.
Segundo o ministro, o grampo nos telefones do banco teria sido feito nas centrais telefônicas da Telerj. Na sede do BNDES são feitas varreduras a cada três dias, o que inviabilizaria a instalação de escutas. ‘‘Infelizmente, a gente sabe que o Rio de Janeiro é uma cidade mais sensível a esta forma de crime organizado’’, afirmou Mendonça de Barros. ‘‘O que os técnicos me disseram é que não há como identificar um grampo feito na central telefônica.’’ Ele lembrou ainda que não há indício de que tenha ocorrido grampo na Telesp.
As fitas foram entregues ao ministro pelo presidente do BNDES, que as recebeu do deputado federal eleito Aloízio Mercadante (PT-SP). Segundo Mendonça de Barros, ele recebeu fitas claramente editadas, que tratam de conversas ocorridas antes, durante e depois da privatização. Foram gravadas apenas conversas referentes ao consórcio Tele Norte Leste (Telemar). ‘‘Conversas referentes a outros grupos não foram incluídas na fita’’, ressaltou.
Mendonça de Barros elogiou a postura do deputado, que antes de divulgar a fita procurou o presidente do BNDES. ‘‘O Aloízio, da mesma forma que o Lula, teve a correção de saber o que tinha acontecido, e foi falar com o Andr钒, disse o ministro, referindo-se à decisão do candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, de não divulgar denúncias contra o presidente da República e assessores diretos, entregues por assessores do candidato ao governo paulista, Paulo Maluf.
A divulgação destas fitas para um membro do PT, segundo Mendonça de Barros, mostram que estas gravações, depois da espionagem industrial, tiveram também uma motivação política. Ainda assim, em relação ao conteúdo das fitas, o ministro disse que elas podem causar apenas um ‘‘constrangimento de natureza pessoal’’. ‘‘Eram dias de tensão muito grande, e todos estavam com adrenalina lá em cima’’, afirmou. Ele disse não se lembrar se usou o termo ‘‘telegangue’’, referindo-se aos membros do consórcio que arrematou a Telemar. ‘‘Mas este era o apelido usado pelo mercado, e eu não sei porqu꒒, disse.
O ministro também garantiu que não foram mencionados os valores da privatização nos telefonemas gravados. ‘‘No BNDES, a única coisa que não se fala é o valor’’, afirmou. ‘‘A função do banco é estimular os competidores’’. Mendonça de Barros disse que está gravada uma conversa dele com um representante da operadora americana Sprint, que tinha dúvidas sobre o leilão. ‘‘Ninguém vai saber ou falar sobre ágio, porque é uma informação confidencial’’, disse.

mockup